Cobrindo uma identidade

Por: Camila Moreira e Debora Simeão

Nos lugares onde haviam grafites agora existem paredes cinzas. A cidade de São Paulo sentiu, no início de 2017, os primeiros efeitos do programa “Cidade Linda”. A iniciativa criada na gestão de Fernando Haddad e posta em pratica pelo atual prefeito João Dória, apagou os murais localizados na Avenida 23 de maio, que chegavam a somam mais de 5,5 Km de extensão.

O ato causou polêmica e diversos artistas se manifestaram contra a medida, afirmando que é preciso valorizar o grafite como uma manifestação artística válida, além de acusarem Dória de ter acabado com uma das marcas turísticas da cidade. O repúdio aumentou quando o mural do grafiteiro Kobra, um dos mais famosos da cidade e que retratava a sociedade paulistana dos anos 20, foi inteiramente apagado.

“É como se eles quisessem apagar toda uma memória. O grafite demorou anos para conseguir seu espaço e agora tê-lo coberto dessa maneira, menospreza o caminho que esses artistas tiveram que percorrer e desvaloriza a arte produzida”, afirma Ana Paula de Melo, professora formada em artes visuais pela Unicamp.

Os grafites começaram a surgir na década de 80 como forma de protesto contra a ditadura militar. Seu precursor era Alex Vallauri que, junto com outros artistas anônimos, começou o que renderia a São Paulo o titulo de capital de arte de rua.
 
 Após manifestações contrárias ao acontecido com os murais, Dória falou sobre a criação de um grafitródromo, que seria um espaço reservado para os grafiteiros de toda a cidade expressarem sua arte. A construção ficaria no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo.
 
 Ana Paula não vê a iniciativa com bons olhos: “Eu não sou a favor de ter um lugar específico para o grafite. O grafiteiro quando chega no espaço não tem um plano de trabalho, a criação vem de momento, com a inspiração e possibilidades oferecidas. Quando se especifica um lugar para criar, limita-se o artista” explica.


Texto produzido para trabalho universitário.