Nosso corpo como máquina dos genes

[ um pouquinho sobre O Gene Egoísta, de R. Dawkins ]

O Gene Egoísta é um desses livros que quebra paradigmas e apresenta uma nova proposta de compreender o mundo. No caso, mais especificamente, compreender a vida e a sua evolução.

Não temos uma definição totalmente fechada e bem compreendida do que é a vida e porque ela existe. Podemos talvez responder a essa pergunta com uma explicação de como a seleção natural funciona, mas provavelmente não seria muito satisfatória, pois explica o processo, e não a origem. A essência da pergunta continuaria lá: por que a forma de organismos na evolução da vida?

A resposta pra essa pergunta não será dada, porém, creio ser talvez possível chegar mais perto de uma compreensão a respeito. Vamos tentar ir bem devagar. Primeiro, a ideia de unidade: para pensar em evolução e transformação, é interessante criar uma elemento unitário de análise.

Existe uma tendência na Biologia a pensar em espécie como unidade da evolução. Porém, vamos seguir a proposta de Dawkins e ir além disso. Uma espécie é um conjunto muito complexo de entidades menores, como organismos, tecidos, células e cromossomos, por exemplo. Queremos algo mais pontual, mas que ao mesmo tempo, não perca definição e importância na análise da evolução da vida.

Pegar o átomo como unidade seria complexificar de forma extrema, algo mais perto de um estudo de Física Quântica do que uma discussão da Biologia. O que parece fazer muito sentido é tratar o gene como elemento unitário da evolução.

Eles estão dentro do leitor e de mim. Eles nos criaram, o nosso corpo e a nossa mente, e a preservação deles é a última razão da nossa existência. Percorreram um longo caminho, esses replicadores. Agora, respondem pelo nome de genes.

Replicadores.

Esse termo é muito interessante e simples. Significa unidades que se replicam, vem antes mesmo do gene em si. Para compreender a sua importância, vamos voltar rapidamente uns 3 a 4 bilhões de anos atrás e visualizar a sopa primordial no planeta Terra. Um aglomerado rico de substâncias orgânicas que na presença de energia, como o calor do Sol, começaram a se combinar na forma de moléculas.

Moléculas instáveis não duram muito e logo deixam de existir ou se transformam, mas moléculas que alcançam estabilidade podem adquirir a capacidade de criar cópias de si, de se replicar. São acidentes que acontecem quando se dá muito tempo ao Universo. A sopa então foi criando diversidade e cópias e mais cópias de diversos replicadores: algumas moléculas grandes, outras pequenas, umas mais estáveis, outras que duravam menos, etc.

Isso tudo aponta para um momento em que a sopa se torna tão cheia e diversa, que se inicia o desenvolvimento de formas mais complexas de replicação. De forma extremamente resumida, a situação se complexifica ao ponto dos replicadores criarem máquinas de sobrevivência para conseguirem estabilidade e maior poder de reprodução de si em ambientes diversos. Eles se espalham pela Terra.

Os replicadores da vida são os famosos genes, e as suas máquinas/veículos, os organismos vivos. O gene é tratado como unidade por ser um replicador básico de informações biológicas específicas. Ele contém a sequência de informações necessárias para se criar cada parte de um corpo que tem a capacidade de se replicar, seja por reprodução sexuada ou não.

Pode ser um pouco assustadora a ideia, porque nos leva a pensar que somos "apenas" veículos de algo que está muito mais no controle da vida do que nós mesmos. Por isso também O Gene Egoísta é tão marcante. Ele tira as rédias do caminho da evolução dos organismos para os genes, essas minúsculas sequências de ácidos nucléicos.

Os replicadores já não se encontram espalhados livremente, aqui e ali, pelo mar afora. Estão empacotados em conjuntos enormes: os corpos individuais. […] Mas o corpo individual, tão familiar para nós, não precisa necessariamente existir. O único tipo de entidade que tem de existir para que a vida possa surgir, em qualquer parte do universo, é o replicador imortal.

Eu gosto bastante dessa ideia porque, além de ser uma visão que parece mais fiel ao funcionamento e origem da vida, ela coloca em questão nosso antropocentrismo. Essa tendência do ser humano de se colocar como centro, organismo de livre arbítrio, diferente da natureza (até mesmo supra-natureza), especial no universo… perde um pouco o sentido.

Se fosse para delimitar um agente ativo unitário governante no processo da vida e evolução (levando em consideração que o ambiente é um fator sempre presente e importante), o gene é um candidato muito mais adequado do que nós mesmos, os organismos ou as espécies.