O núcleo familiar é visto como o pilar mais importante da sociedade e como algo que precisa ser protegido. Mas como agir quando é ele que prejudica nossa saúde mental?

Camila Nishimoto
Feb 10 · 7 min read

Sabemos que não existe família sem defeitos. Todo mundo tem problemas, até mesmo aquelas pessoas que tem um Instagram perfeito, cheio de fotos lindas e que parecem imunes às dificuldades do dia a dia.

Mas nem sempre as situações que são vistas como “normais” na nossa convivência diária com a família podem ser classificadas assim. Será que sequer existe uma normalidade de verdade? Muitas vezes o “normal” é uma situação de abuso que foi naturalizada ao longo da nossa vida. Isso precisa mudar.

Falar de família é sempre difícil. É muito fácil acabar sendo pintada como a pessoa grossa ou insensível. Alguém sempre vai sair ofendido. Levei alguns dias até me convencer que precisava escrever esse texto. A falar de como a família — um grupo de pessoas que, em geral, amamos e com quem nos importamos — pode ser o principal causador da nossa dor e da nossa saúde mental instável.

Isso não quer dizer que odeio meus familiares ou que você deveria odiar os seus. Mas nem sempre somente aquilo que não gostamos é nocivo. Ninguém quer admitir que o espaço onde foi criado é tóxico em algum nível. Afinal, para que mexer com quem está quieto?

Mas precisamos cada vez mais caminhar rumo a uma sociedade que não romantize e idealize relações humanas, estejam elas no núcleo familiar ou não. Para fugir dessa romantização, é preciso falar e compartilhar experiências — principalmente as ruins.

Colocar o dedo na ferida e mostrar que não existe um “ideal” de família que deva ser buscado e/ou preservado e que a estrutura “padrão” como existe hoje causa mais mal do que bem. Você não é uma pessoa ruim por querer romper com esse ideal, por mais que todo mundo pareça querer te convencer do contrário.

Família não é intocável e também pode fazer mal

Quando estava crescendo, não lembro de ler ou ouvir falar sobre abusos emocionais e opressões psicológicas que podem acontecer dentro da família. Não tenho memória de ver amigos e colegas comentando sobre como eram as dinâmicas dentro de suas casas até chegar ao ensino médio. Por muito tempo isso me fez pensar que só na minha casa as coisas não eram tão cor-de-rosa. No meu caso, o que acontecia – e ainda acontece – eram algumas situações nocivas psicológica e emocionalmente. Eu não via ninguém, em lugar algum, falando sobre isso.

Comportamentos abusivos, físicos e psicológicos, por parte de figuras de autoridade na família, têm grandes chances de serem derivados da noção de que crianças e adolescentes são uma propriedade, não seres humanos. A maior parte dos abusos sexuais de menores acontece dentro de casa, muitas vezes motivados não apenas por pedofilia, mas por uma ideia de poder e posse sobre o(a) abusado(a).

Relações familiares tóxicas não podem ser analisadas sem levar em consideração fatores estruturantes da nossa sociedade. O sexismo afeta diretamente os relacionamentos familiares para mulheres, assim como a masculinidade tóxica afeta os relacionamentos para homens. Quantas mulheres você conhece que são as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas em casa? Já parou para refletir como essa divisão desigual do trabalho afeta a saúde mental de mães, esposas, filhas e irmãs? Isso sem falar na carga mental que costumam carregar sozinhas, coroada pelo famoso: “mas era só pedir!”.

Espelhar comportamentos vivenciados no dia a dia fora de casa não é exceção. Quantos homens não descontam em suas esposas e filhos as frustrações de ter um chefe truculento, fazendo com que eles passem pelo mesmo que ele passa no trabalho?

Para mulheres negras a estrutura é ainda mais cruel. Se mulheres, no geral, tendem a ser empurradas com frequência para um amadurecimento precoce, meninas negras podem nem chegar a ser vistas como crianças. Estudos apontam que pessoas assumem que meninas negras sejam mais maduras sexualmente do que brancas ainda na primeira infância.

Para pessoas LGBT, a violência derivada do desrespeito à identidade e sexualidade tende a ser uma preocupação muitas vezes mais frequente dentro dos ambientes familiares do que no mundo externo. Não sem motivo, já que o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo inteiro.

Por tudo isso, é urgente que se deixe de lado a noção de que o padrão de família que é cultuado hoje é algo sagrado, à prova de erros. Núcleos familiares são compostos de seres humanos e a humanidade é falha. Seus pais, irmãos, tios, avós podem, até mesmo sem que você perceba, afetar a sua saúde mental negativamente e para o resto da vida; e não é sua culpa não conseguir reagir a situações abusivas dentro de casa.

Você também não deve se sentir mal por querer e buscar algum tipo de afastamento, seja ele físico ou emocional. Algumas rachaduras podemos preencher com ouro líquido para nos fortalecermos, mas outras viram cicatrizes muito difíceis de serem resignificadas.

Você não precisa perdoar — mas tudo bem se decidir fazê-lo

Li bastante sobre estrangement, termo em inglês para o fenômeno de pessoas que, por vontade própria, não mantêm contato com familiares. Em um dos textos, publicado no The New York Times, uma aspa me chamou a atenção:

“Em nossa cultura, existe uma enorme culpa quando não perdoamos nossa família”

Por sermos o país com maior quantidade de adeptos ao cristianismo no mundo, a noção de perdão cristão é muito forte em nossa cultura. “Perdoar é divino”, mas pode nem sempre ser o que é melhor para você. Não é sua obrigação perdoar sua família e continuar a se relacionar com eles porque existem expectativas sociais que nos empurram para isso.

Mas você também não deve sentir culpa por ter decidido conceder o perdão, por mais violenta que tenha sido a sua relação. O perdão é algo inteiramente pessoal, assim como a decisão de concedê-lo ou não. Quem melhor sabe da sua saúde mental é você mesmo, não o seu líder religioso, sua comunidade ou seus amigos.

Como superar os comportamentos tóxicos da nossa família?

Confesso que não tenho uma resposta pronta para isso. Acredito, na verdade, que não exista uma resposta única para essa pergunta. A maneira como o ambiente familiar afeta cada um é única e assim também é a forma de lidar com situações e comportamentos dolorosos na família.

Com certeza devo ter vivido todas aquelas fases que a gente vê listadas por aí — negação, raiva, negociação, tristeza e aceitação. Mas o ponto é que nunca me vi 100% estagnada em uma delas. Mesmo depois de já ter passado pela aceitação, me vi novamente com raiva etc.. Não é um processo de mão única e aceitar meus sentimentos — bons e ruins — com relação à minha família é uma parte importante do processo de lidar até hoje.

Se for possível, estar fisicamente distante pode ajudar a enxergar tudo com mais clareza e conseguir mais autonomia para si mesmo. Muitas vezes a culpa que sentimos por não termos a melhor relação com a família fica maior quando existem esses comportamentos e ainda dependemos financeiramente de nossos familiares, morando sob o mesmo teto. Se for possível, reduza ou abdique dessa dependência.

Investir mais tempo em si, fazendo coisas que não estejam vinculadas à sua família, é algo que me ajudou no processo de me enxergar enquanto ser humano independente. Como uma árvore completa e não apenas um galho na árvore deles.

Quando criança, a música Como nossos pais sempre me assustou porque, ao que parecia, não importava o tamanho dos meus esforços, sempre seria como minha família. Depois de adulta entendi que a letra, apesar da primeira impressão, pouco falava de relações familiares e eu já não tinha mais tanto medo de não conseguir ser diferente. Mas ser independente é muito importante. Você pode ler, ouvir música, ver filmes, bordar, fazer origamis, tocar violão… Qualquer coisa que te faça sentir único pode ajudar.

A terapia é outra ferramenta que pode ser um divisor de águas. Conseguir colocar para fora sentimentos e situações sem filtro e sem medo de ser julgado é uma sensação libertadora. Nem sempre temos esse espaço em nossas casas ou com alguém próximo. Obviamente que as estruturas de saúde ainda não permitem que esse benefício vá muito além daqueles que tem o privilégio do dinheiro para pagar pelas sessões ou por um convênio médico, mas se você pode fazer, faça.

Esteja com quem te faz sentir amado. A presença dos meus amigos foi fundamental para que eu conseguisse enxergar com mais nitidez o meu valor. É claro que se basear em percepções externas nem sempre é o melhor caminho para desenvolver a autoestima e o autovalor. Mas, para mim, ver e sentir que era amada e apreciada exatamente por ser quem era e sentir que tinha essa liberdade foi um fator se suma importância para que meu processo de autoestima e autoconfiança ganhasse corpo.

Busque ser ouvido quando possível. Muitas vezes falar com nossos familiares e colocar algumas coisas para fora pode ajudar. Quando for possível — e sem riscos à sua integridade física — , tente impor o que pensa, suas necessidades e suas limitações também. Coloquei isso em prática recentemente porque vi a necessidade de separar as minhas questões financeiras da parte financeira da minha família. Por mais que tenha sido uma das conversas mais difíceis que já tive e não tenha tido as melhores reações, foi importante para mim me posicionar para me sentir mais respeitada.


É claro que tudo o que sugeri acima se aplica a casos onde a toxicidade familiar está em níveis onde ainda é possível estabelecer algum diálogo sem colocar em risco sua integridade física e psicológica. Em casos onde existam abusos físicos, sexuais, psicológicos ou emocionais graves, busque apoio externo para denunciar. O Disque 100 é o canal nacional para recebimento deste tipo de denúncia.

Se você quiser continuar essa conversa, você é mais do que bem-vindo nos comentários!

Camila Nishimoto

Written by

Jornalista, apaixonada por política, direitos humanos e meio ambiente

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