As Mulheres que moldaram o gênero do Terror (Parte 1)

A Bruxa (2015)

Esse texto é uma tradução livre do texto: The Women Who Shaped the Horror Genre, que faz parte de uma série de quatro textos escritos por Sady Doyle ( @sadydoyle ) para o The Fearsome is Female postado no dia 17 de maio de 2017.

Vivemos em um mundo cheio de terror não reconhecido.

É um dos paradoxos centrais da sociedade americana: somos, por quase todos os padrões razoáveis, pessoas inusitadamente violentas. Basta olhar para as estatísticas: uma média de uma aula de tiro por semana desde 2013, 136 tiroteios em massa em 2016, uma taxa de homicídio relacionada a armas que é 25 vezes maior do que a de outros países desenvolvidos. Em suma, os americanos são sete vezes mais propensos a morrer de violência do que as pessoas em outras nações de alta renda.

No entanto, também somos, invulgarmente, uma nação que considera que ver ou falar sobre violência, é algo de mau gosto. Os políticos nos alertam, na cara dura, para não politizar nenhum massacre. Adolescentes, que atualmente estão preocupados com a sua própria mortalidade, são aconselhados a não ficarem mórbidos. Alguma dose de otimismo, não-opcional, insiste que continuemos acreditando que tudo dará certo, mesmo quando tudo, com toda a certeza, não vai dar.

Messiah of Evil (1973)

Isto é, particularmente, uma verdade para as mulheres, cujos corpos e vidas são almejadas por essa violência, que elas não deveriam ter conhecimento. Mais uma vez, uma rápida passada pelas estatísticas nos conta a história: uma em cada três mulheres será abusada fisicamente por seu parceiro durante a sua vida, uma média de vinte mulheres por minuto e dez milhões de mulheres por ano. Uma em cada seis mulheres sobreviveu a um estupro ou a uma tentativa de abuso sexual. Mais de um terço de todas as vítimas de homicídios são mortas por seus parceiros do sexo masculino. Quanto a toda essa violência armada americana, bem, as balas estão atingindo alvos femininos. A maioria dos assassinatos em massa são apenas incidentes de violência doméstica com uma contagem corporal maior; em 57 por cento dos tiroteios em massa entre 2009 e 2014, as vítimas incluíam o parceiro do assassino e / ou um membro da família (e essas vítimas eram mulheres ou crianças 81% do tempo). Uma história de violência doméstica é uma das melhores previsões de uma futura matança.

Esses são os dados dos EUA, mas o Brasil não fica atrás, sendo o quinto país com mais taxas de feminicídio do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher. As mulheres negras são ainda mais violentadas. Apenas entre 2003 e 2013, houve aumento de 54% no registro de mortes, passando de 1.864 para 2.875 nesse período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos.

Segundo dados do Ligue 180, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, houve um crescimento de 133% no volume de relatos de violência doméstica e familiar em 2016. Entre as denúncias, a central de atendimento identificou aumento de 123% no número de relatos de violências sexuais em relação ao primeiro semestre de 2015. Esse tipo de violência foi puxado principalmente pelos relatos de estupros, que cresceram 147%, chegando a 2.457 casos, com média de 13 registros por dia.

Para saber mais cliquem: “O feminicídio é hoje o maior problema de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil”, “11 anos da Lei Maria da Penha. 11 dados recentes da violência contra a mulher no Brasil.” e “As cidades que mais matam mulheres no Brasil”

Estas são apenas as grandes e óbvias formas de violência; aquela com contagens de corpos e evidências (*paper trails no original), aquela com nomes. As mulheres podem morrer por negligência institucional ou pelo auto ódio que é culturalmente instilado, com a mesma facilidade que são mortas por armas. No entanto, já que o terror feminino geralmente acontece nos lugares que designamos “doméstico” e “privado” — em relacionamentos amorosos, na família, em casa — muitas vezes é indiscutível. Nós chamamos isso de assunto privado, um desentendimento familiar, um crime passional, uma transa ruim, um encontro ruim, um casamento ruim, parentes ruins; chamamos de tudo menos do que é, que é violência. E, quando as mulheres que sobrevivem falam sobre isso, são mais propensas a serem taxadas como instáveis ​​e vingativas do que realmente conseguirem justiça. O que acontece em casa fica em casa, e Deus ajude a mulher que trazer isso à tona.

Pânico 4 (2011)

O otimismo obrigatório vem com um custo alto — ou seja, o custo do silêncio, que como tudo e qualquer um que não se encaixa na narrativa perfeita é sistematicamente silenciado e ignorado. No entanto, nenhuma verdade urgente pode ficar em silêncio para sempre. Em face de toda essa repressão, nós inventamos uma literatura do indizível — uma forma de arte que confronta ritualmente, não apenas a violência, mas todas as outras horríveis verdades concretas que não devemos falar na mesa de jantar. Temos o terror: um gênero que é praticamente, inteiramente dedicado ao nascimento, copulação e à morte.

Esses são todos os fatos quando você vai ao que interessa (* do original: That’s all the facts when you come to brass tacks), T.S. Eliot nos diria. São também, distintamente, fatos femininos; parir e foder, pois ambos pertencem a essa esfera doméstica, feminina, indescritível. A morte é um pouco mais neutra em termos de gênero (“a morte é uma mulher”, insistiu Simone de Beauvoir, embora, talvez, apenas pela simetria), mas apenas um pouco. A morte pertence ao corpo, que sempre foi algo da mulher, corruptível, um território feminino; os homens, afinal de contas, reivindicaram a mente para si mesmos, com os seus movimentos de objetividade e genialidade, deixando o resto de nós brincando na lama com os restos que eles deixaram.

Garota Infernal (2009)

O terror toca na lama. É exuberantemente físico, tão interessado em fazer você vomitar ou pular ou gritar como em fazer você pensar. O terror é luxuriantemente amador; suas metáforas são tão insípidas que crianças do primário podem analisá-las, o seu enredo e diálogo são frequentemente bobos ao extremo, é melodramático e estridente e todas as outras coisas que as mulheres são acusadas de serem sempre que levantam a voz. O terror é tudo isso, e ainda assim funciona; como uma mensagem codificada, um grito que brota de um sorriso, um ritual de confronto da sociedade violenta com sua própria violência, o terror pode violar as regras do bom gosto em todos os níveis imagináveis ​​e ainda assim manter um poder tremendo.

Então, o terror, você vai pensar, é o paraíso natural para artistas femininas. É um gênero sobre trauma, centrado nos espaços domésticos e privados, onde o trauma da mulher frequentemente se desenrola: a família, a casa, o relacionamento amoroso, o corpo; lugares seguros que podem ser irrevogavelmente violados ou se tornarem ameaçadores em um instante. No entanto, até recentemente, os críticos viram o terror como um fenômeno, em grande parte, masculino. Ele é visto como o bagaço descartável para meninos adolescentes, viciados em Mountain Dew à procura de algo ilícito. Mesmo os críticos que consideram o terror mais seriamente, e escreveram artigos mais empáticos e pensativos sobre ele — o Men, Women and Chainsaws da Carol Clover me vem à mente — tendem a assumir que as mulheres na tela são apenas ficções convenientes, e por isso os espectadores de qualquer filme de terror (para não mencionar as pessoas que realmente os fazem) são do sexo masculino.

A Fada dos Repolhos (1896)

Não tão rápido. As mulheres sempre fizeram terror; as mulheres, indiscutivelmente, moldaram o terror para a sua forma atual. As mulheres também foram, em vários momentos ao longo da história, as principais consumidoras e fãs de terror; as pessoas que liam todos aqueles lúgubres romances góticos não eram jovens homens impressionáveis. Isso não deveria ser surpreendente. A ficção de terror pode fornecer um caminho para que as mulheres explorem suas próprias vulnerabilidades no patriarcado, e seus próprios medos especificamente femininos, sem serem condenadas e envergonhadas por isso; as mais importantes, e mais dramáticas, metáforas e a natureza excessivamente excessiva do gênero, podem dar cobertura às mulheres para as mais importantes, e mais dramaticamente excessivas verdades.

Drácula de Bram Stoker (1992)

Esta é uma série de textos dedicados ao relacionamento das mulheres com o terror — e o relacionamento das mulheres com o medo. Cada capítulo abordará uma criadora diferente e como ela usou o gênero para dar voz às verdades indescritíveis sobre a vida das mulheres: os natimortos de Mary Shelley, a sufocante vida doméstica de Shirley Jackson ou a atual renascença de diretoras do terror artístico e o seu fascínio pela fome das mulheres. Ao analisarmos o seu trabalho — e o trabalho que elas influenciaram — podemos entender algo novo sobre todo o terror não reconhecido que envolve a vida das mulheres. Podemos confrontar o rosto indizível de nossa própria opressão, e vivermos para contar a história; podemos usar essas histórias obscuras para explorar as escondidas faces das mulheres no mundo.

A Parte 2 será postada em breve ;)