As Mulheres que moldaram o gênero do Terror (Parte 4): Fome

Diretoras e a ascensão do terror canibal de garotas no cinema

Garota Sombria Caminha pela Noite (2014)

Esse texto é uma tradução livre do texto: Hunger, quarto texto da série The Women Who Shaped the Horror Genre, que faz parte de uma série de quatro textos escritos por Sady Doyle ( @sadydoyle ) para o The Fearsome is Female, postado no dia 21 de junho de 2017.

Estamos vivendo no meio da renascença do terror dirigido por mulheres.

Estamos vivendo no meio da renascença do terror dirigido por mulheres.

Claro que, para ter um renascimento, você precisa de uma idade das trevas primeiro. Durante a segunda metade do século XX, o epicentro de filmes de terror mudou, onde a predisposição de Hollywood para diretores brancos do sexo masculino ameaçou anular inteiramente as vozes femininas. Embora, grandes filmes de terror tenham sido feitos em todas as épocas, na década de 1980, o mainstream estava entupido com o que Roger Ebert chamava de “filmes de adolescentes mortos”. O envolvimento das mulheres era limitado a transar, gritar ou morrer.

A literatura também estava cheia de insegurança masculina. Em 2012, o site Horror Novel Reviews listou os 10 maiores escritores de terror vivos; todos os 10 eram homens brancos. É verdade que esse site dificilmente é o Paris Review, mas se você pensar em “romances de terror”, suas associações imediatas — os Kings, Koontzes e Barkers do mundo — provavelmente, todos serão caras. Você pode adicionar Anne Rice. Você pode até adicionar todos os romances com vampiros neles — seus True Bloods, Crepúsculos e Anitas Blake: Caçadoras de Vampiros, e assim por diante. Mas encontrar exemplos baseados que não fossem em livros de vampiros levaria tempo.

No entanto, em 2017, mesmo que os números para diretores do sexo feminino são obscuros em todos os outros lugares, a “ascensão das diretoras de terror” continua sendo uma tendência. Julia Ducournau, Ana Lily Amirpour, Jennifer Kent — se você já ouviu falar sobre um novo projeto de terror ultimamente, as chances de que são de uma mulher são grandes (Ou, para ser justa, pode ser Corra!). Até mesmo projetos dirigidos por homens, como Sob a Pele ou A Bruxa, centram-se nas mulheres e refletem as políticas sexuais feministas. Enquanto isso, a quantidade de livros de terror no mundo está em ascensão, em grande parte graças a uma nova geração de escritoras, que nunca internalizaram as distinções dos pré-millenials do que pode ser considerado arte. De alguma forma, um dos gêneros mais notoriamente dominado por homens, se tornou um jogo de meninas.

Em algum nível, as forças que exigem esse ressurgimento (que merece um nome menos desajeitado; então só para ser teimosa e porque os homens sempre conseguem nomear essas coisas, vamos chamá-lo de Maré Vermelha) são as mesmas da época de Jane Austen. Mesmo alguns dos filmes de terror mais sangrentos atualmente, atraíram uma audiência predominantemente feminina. As mulheres nunca perderam o gosto pelo terrível ou pelo gótico, o que só faz sentido essa insistência em ter essas histórias contadas por outras mulheres.

No entanto, há algo sinistro sobre o fato de que, depois de todo esse tempo, as mulheres ainda precisam do terror. O terror é um confronto com as verdades indescritíveis de uma época. Shelley escreveu sobre a maternidade no meio de uma epidemia de mortalidade infantil; Jackson escreveu sobre lares de luxo demoníacos quando a domesticidade estava levando as mais privilegiadas mulheres de sua idade à loucura. Em 2017, as mulheres estão, teoricamente, em melhor situação; vivemos em uma época em que o feminismo teve grande sucesso, onde algumas mulheres até se perguntam se ainda precisamos dele. No entanto, quando se trata de entretenimento, as mulheres ainda são desproporcionalmente atraídas para um gênero sobre trauma, vitimização e perda de controle. Que novas ansiedades femininas estamos ignorando? Qual é o pior dos medos e o que há de mais errado com o mundo que as mulheres estão usando no terror para articular?

Por que, em uma época em que as mulheres, supostamente, podem fazer qualquer coisa, ter qualquer coisa e ser qualquer coisa; várias mulheres nessas histórias estão com tanta fome?


Dar o salto do século XX para o século XXI, também significa dar o salto do texto para a imagem. Então, algumas imagens, para a sua consideração:

  • Uma mulher se agacha sob a luz da geladeira. A sala está escura. Com as mãos nuas, ela está enfiando um frango vorazmente na boca.
Raw (2016)
Garota Infernal (2009)

• Um homem desliza os dedos na boca de uma mulher. Ela os chupa, um movimento bem sexual. Quando ele puxa a mão para trás, ele está gritando, e os cotos dos dedos estão jorrando sangue.

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014)
Santa Clarita Diet (2017)
  • Uma mulher está montando um homem; fodendo ele, em cima dele. Ela se inclina no calor do momento, com a boca aberta. Ela o morde, arrancando um pedaço de sua carne.
  • Uma mulher começa a vomitar incontrolavelmente. São vários litros de líquido, mais do que deveria caber em seu corpo. Ela não consegue parar. Ela está se transformando em alguma coisa diferente, não-humana.

O terror feminino está mais diversificado do que em qualquer outro momento da história. Não precisamos mais confiar apenas em mulheres brancas e endinheiradas com tempo livre; o trabalho que está sendo produzido vem de diferentes países, diferentes culturas, de mulheres negras, asiáticas e LGBTs, mais do que de costume. Falam em diferentes idiomas. Varia de modo selvagem e estético, do terror artístico para um campo mais intencional.

Raw (2016)

No entanto, de alguma forma, essas cenas foram repetidas, quase em sequência, em vários projetos. Você pode vê-las em Garota Infernal de Karyn Kusama, Raw de Julia Ducournau, Desejo e Obsessão de Claire Denis, Garota Sombria Caminha pela Noite de Ana Lily Amirpour e até mesmo em Santa Clarita Diet, uma comédia de terror da Netflix sobre uma mulher suburbana zumbi, dirigida por um homem, Victor Fresco. Todo cineasta apresenta sua própria explicação; além da onda zumbi, as mulheres em questão são vampiras, demônios ou simplesmente canibais. Mas o tema persiste. Hoje em dia, quando as mulheres pensam em terror, pensamos em fome. A assinatura da ansiedade feminina da nossa época é o corpo de uma mulher, tomada pela necessidade de tomar e devorar o que não deveria; um pesadelo de consumo incontrolável e descontrolado.


“Anorexia”, escreveu certa vez a psicóloga feminista Mary Pipher, “é uma metáfora”.

Propaganda da Yoplait, de 2010. Foi retirada da TV americana por ser um gatilho para pessoas com distúrbios alimentares (por motivos óbvios!)

A explicação padrão para todos esses filmes de canibais de meninas é que eles são sobre sexo: complexo de castração, a vagina dentada, e assim por diante. Isso não está necessariamente errado; todos aqueles dedos sexualmente mastigados claramente pretendem evocar alguma coisa. Mas os medos dos potencialmente castrados não são, por assim dizer, os medos do castrador. O terror canibal pode evocar a ansiedade das mulheres sobre a sexualidade. Mas, mais obviamente, evoca a ansiedade das mulheres quanto a comer.

A relação das mulheres com a comida é tão politicamente carregada quanto sua sexualidade. Elas são, tradicionalmente, o gênero criado para cozinhar e servir; é um símbolo tangível de sua capacidade ou disposição de nutrir os outros. As mulheres também são julgadas mais duramente por comer, do que os homens. Seu peso, as formas de seus corpos, sua gordura ou magreza são vigiados com mais intensidade e usados ​​com maior frequência para defini-las ou fazer julgamentos sobre seu valor. Na verdade, o relacionamento que as mulheres devem ter com a comida — servindo para todos os outros, nunca tomando o suficiente para si mesmas — é o relacionamento que elas deveriam ter com o mundo.

No romance de Han Kang de 2007, A Vegetariana, a comida é sobre o controle. Yeong-hye, uma dona de casa passiva e obediente que aparentemente nunca apresentou qualquer forma de resistência ao pesadelo que ela tem como marido — ele a chama de “a mulher mais comum do mundo” como um elogio — começa a ter pesadelos com carne e acaba jogando fora quase toda a comida deles. Ela não oferece desculpas: “Eu não podia deixar essas coisas ficarem na geladeira”, ela diz a ele. O marido ainda espera que Yeong-hye cozinhe para ele, e ela o faz, servindo-lhe arroz e folhas de alface. O casamento que nunca a nutriu, agora o deixará passar fome também. “A própria ideia de que deveria haver outra alternativa para ela, uma, onde poderia fazer o que quisesse, foi surpreendente”, seu marido nos diz.

Mas Yeong-Hye continua fazendo o que lhe agrada, passando fome discreta, mas visivelmente, por razões que ela se recusa a explicar. Ela anuncia, no meio de jantares extravagantes, que ela não vai comer o que o anfitrião lhe serviu. Ela começa a se recusar a usar sutiã, por causa das barulhentas objeções do marido, e então começa a se recusar a usar uma camisa, exibindo um corpo cada vez mais assustadoramente emagrecido. Sua família inteira é chamada para o projeto de fazê-la comer normalmente, e ela recusa tudo, friamente e completamente. A lista de coisas que ela vai comer fica cada vez menor.

Em algum momento no meio de tudo isso, o marido de Yeong-Hye nos informa, que ele começou a estuprá-la: “Ela ficou lá no escuro, olhando para o teto, com o rosto vazio”, ele nos diz. “Assim que terminei, ela rolou e enterrou o rosto na colcha. Fui tomar um banho e, quando voltei para a cama, ela estava deitada ali, como se nada tivesse acontecido, ou como se tudo tivesse sido resolvido durante o tempo em que passei me lavando.

Mas se a reação de Yeong-hye a seu estupro é totalmente passiva, veja a sua reação quando seu pai tenta fazê-la comer um único pedaço de carne de porco cozida:

Um gemido veio de sua boca bem fechada. Ela não conseguiu dizer nem uma única palavra, no entanto, quando ela abriu a boca para falar a carne encontrou o caminho …. Meu sogro esmagou a carne de porco como uma polpa, nos lábios da minha esposa enquanto ela lutava em agonia. Embora ele separasse seus lábios com seus dedos fortes, ele não podia fazer nada sobre seus dentes cerrados.
Eventualmente, ele voltou a se irritar e a atingiu no rosto mais uma vez.
“Pai!”
Embora [sua irmã] In-hye tenha pulado nele e o segurado pela cintura, naquele instante a força da bofetada abriu a boca da minha esposa e ele conseguiu enfiar um pouco da carne de porco … Minha esposa rosnou e cuspiu a carne. Um grito animal de angústia explodiu de seus lábios.

Ela pega uma faca e tenta se matar imediatamente. Isso é anorexia como uma metáfora: toda a capacidade de resistência de Yeong-hye se concentrou em uma única decisão: a escolha de não comer carne. Comer é uma forma de traçar os limites do corpo, tomar uma decisão sobre o que entra e o que sai, o que ela aceitará ou não. Isso é importante, precisamente, porque ela é impotente para tomar essas decisões em qualquer aspecto de sua vida.

Mas Yeong-hye não para de comer carne porque ela não gosta mais. Pelo contrário. O marido dela não sabe do que ela tem medo ou porque seus pesadelos são tão perturbadores, mas nós sabemos. Nós vemos seus sonhos (memórias?) De como ela “empurrou aquela massa vermelha e crua em minha boca, e a sentiu esmagar contra as minhas gengivas, o céu da minha boca, escorregadio com sangue carmesim. ” Nós sabemos como ela começa a babar, incontrolavelmente, à mera visão ou cheiro de carne crua: “O açougue, e eu tenho que apertar minha mão sobre a minha boca. Ao longo do comprimento da minha língua para os meus lábios está escorregadio com saliva. Vazando entre os meus lábios, escorrendo. ”. Nós quase nem estamos surpresos quando encontramos Yeong-hye, envolvida em cuidados médicos, segurando o corpo mutilado de um pássaro. Sabemos de alguma forma, antes de sermos informados, que as feridas do pássaro são na forma dos seus dentes.


Mas também quer dizer que: o sexo está, inegavelmente, entrelaçado nessas histórias sobre a fome. É outra maneira de colocar algo dentro do seu corpo, mais um desejo de controlar. Mas o sexo é apenas um fio em um emaranhado muito maior; sexo é sobre o querer.

Acadêmicos e outros caras intelectuais tendem a enquadrar isso na área de “desejo feminino”. Mas “desejar” e “querer” são duas coisas muito diferentes. O desejo é bonito e feminino e, invariavelmente, se formos reduzi-lo, erótico. Não importa em que contexto você usa a palavra, o desejo faz com que você pareça estar descrevendo algo que foi ao ar em um filme para TV nos anos 80. O desejo é a luz do luar brilhando através de uma cobertura nebulosa, enquanto há pessoas fazendo algo que você poderia razoavelmente descrever como “fazer amor”. O querer faz você ser expulsa do Jardim do Éden. O querer é a Veruca Salt batendo o pé no chão da fábrica de chocolate: eu quero agora.

EU QUERO AGORA!!

E, como você provavelmente poderia descobrir a partir do fato de que Veruca é assassinada de forma cruel após cantar a sua canção que diz exatamente isso, querer é um sentimento que nós ainda não deixamos que as mulheres tenham. O desejo nu e não erotizado em uma mulher nos perturba; nós o lemos como algo egoísta ou destrutivo (Quantas vezes você já ouviu falar sobre a ambição de Hillary Clinton, ou sobre o carreirismo de uma mulher de sucesso? Quantas vezes você acusou Taylor Swift ou Anne Hathaway de tentar demais, ou chamou uma Kardashian ou Real Housewife de attention whore, uma louca por atenção?). Significativamente, mulheres e homens são igualmente rejeitados. As mulheres só têm um relacionamento mais íntimo com o nosso desgosto. Sabemos o que é querer algo, apesar de nós mesmas, e sermos incapaz de parar até conseguir.

Não é novidade salientar que os anúncios de comida — particularmente os que são direcionados às mulheres — descrevem seus produtos usando a linguagem do sexo. Um sanduíche é um pênis; o iogurte está pingando esperma; hambúrgueres (ou tomates, ou xícaras de café) são seios. Podemos notar que anúncios de doces, um após o outro, mostram uma mulher toda maquiada, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos de prazer, enquanto ela, delicadamente, põe os lábios em torno de uma grande e espessa barra de chocolate.

Mas na cultura ocidental, a linguagem do sexo é também invariavelmente a linguagem do pecado. Sobremesas são decadentes ou indulgentes; para comer sorvete, você deve primeiro se submeter à tentação. Você deve se sentir mal: abrace a sua culpa, uma lanchonete de comida saudável nos instrui severamente. Mas não importa o quão ruim você se sinta, você sempre acaba condenada. Um chocolate predatório nos adverte que pode durar mais do que você pode resistir.

Apenas ao ligar a TV, todos nós já somos abordados por uma crença particularmente católica de que, se você quer muito algo, provavelmente isso é uma prova de que você não deveria tê-lo. Para argumentar que comer é gostoso, argumentamos que comer é imoral. E assim a comida — a forma mais feminizada do desejo e a única tentação que você não pode recusar sem morrer — se torna o veículo final para entender a necessidade feminina. O terror canibal e o terror alimentar permitem que as mulheres processem o desejo como uma presença alienígena no corpo, uma força maior do que nós mesmas, que nos transforma em outra pessoa — em alguém voraz.


Nestas histórias, a auto inanição é frequentemente um sintoma precoce de apetites antinaturais. Em Raw, assim como em A Vegetariana, nossa heroína Justine tem que manter uma dieta vegetariana rígida, simplesmente porque ela vai gostar muito de carne se ela comer. Uma única mordida em uma carne de coelho, durante um trote, se transforma em um desejo insaciável por carne humana. No romance de Helen Oyeyemi, White is for Witching, que parece com o que aconteceria se Kate Bush dirigisse uma adaptação britânica de Corra!, Miranda Silver é diagnosticada com pica — “apetite por coisas ou substâncias não comestíveis”, explica Oyeyemi. Sua ânsia por giz e plástico provoca a sua possessão pelo soucouyant, um monstro branco que come as almas dos imigrantes e de negros. Mesmo em a Garota Infernal, a personagem-título “[precisa] tomar laxantes para ficar magra”. Jennifer, a adolescente que come meninos, tem — ora, ora — um distúrbio alimentar.

Abnegação, um sentimento apropriadamente feminino que se recusa a nos deixar, nunca dura por muito tempo. Apenas salienta o quão feroz é a nossa fome oculta. A verdadeira questão — e a real ansiedade que estamos explorando — é o que acontece quando a fome é desencadeada.

Anorexia, escreveu Pipher em seu clássico sobre as crises na adolescência, O Resgate de Ofélia, é como se fosse uma arma para a submissão, “tanto que é o resultado de um protesto contra essa regra cultural que as jovens devem ser bonitas.” Ela a identifica como uma doença de perfeccionistas, de superalimentadas, de “boas moças” — mulheres como Yeong-hye, que seguem as regras até que a própria obediência se torne uma forma de perversidade. Ficar bêbada — pegar o que quiser, consumir sem restrições, se empanturrar — é algo totalmente diferente. Comer compulsivamente é um ato declarado de revolta, o ato do corpo feminino que, finalmente, ficou completamente “fora de controle”. Fora do seu próprio controle, sim, mas também fora do controle dos outros: “Nós tentamos trancar a comida”, diz a mãe de uma garota com bulimia que Pipher entrevistou para o livro, mas Prudence abriu a despensa com um martelo. Quando ela quer comer compulsivamente, não há como impedi-la.

Desejo e Obsessão (2001)

Esta é a principal imagem do terror canibal de garotas: uma mulher demoníaca, completamente possuída pela sua própria fome, que vai destroçar portas ou paredes, cometer atos de violência antes impensáveis, só para ficar satisfeita (Pense na esposa canibal de Desejo e Obsessão, batendo com as próprias mãos nas paredes da sala onde o marido a prendeu.). Como bulímicas, essas mulheres estão simultaneamente arrebatadas e enojadas com seus próprios apetites. Elas sabem como é bom se alimentar — o prazer inclui, e supera, qualquer apetite sexual: “Eu odeio dizer isso, mas eu prefiro mil vezes comer do que namorar”, disse uma garota a Pipher. Mas muitas vezes, elas passam a maior parte do filme ou do livro tentando negar isso, assim como os bulímicos, que invariavelmente pagam por suas breves férias de culpa e autonegação no ato de vomitar, um ritual de rejeição de tudo o que queriam e ousaram aceitar. Não é à toa que esses filmes incluem tantas cenas de vômitos.

Ainda assim, ver esses filmes apenas como metáforas para transtornos alimentares é tão redutor quanto dizer que são apenas metáforas para o sexo. Seria melhor dizer que o sexo e os transtornos alimentares são eles próprios, metáforas. Eles fornecem duas maneiras diferentes para a nossa cultura falar sobre o quanto as mulheres querem.

As mulheres que dirigem esses filmes vêm de uma geração que foi informada de que as mulheres podem ter tudo. Décadas após a segunda onda do feminismo, nós criamos nossas meninas para serem confiantes, ambiciosas e autocentradas. Nós aprendemos a importância de chavões como imagem corporal positiva e autoestima elevada. Dizemos que as meninas podem obter o que quiserem da vida, desde que trabalhem para isso. No entanto, se elas conseguem o que querem, nós as punimos por isso. As regras contra o desejo feminino ainda se aplicam; nossas filhas ainda crescem vendo mulheres ambiciosas ou bem-sucedidas serem tratadas como piadas, vadias e monstros.

Shelley e Jackson escreveram, para todos os efeitos, de um ponto de vista pré-feminista. Embora, ambas as mulheres estivessem mergulhadas no radicalismo — o legado de Mary Wollstonecraft, o partido comunista da metade do século -, os temores que canalizavam eram receios pré-feministas, desencadeados por uma experiência com o patriarcado não reformado. Em uma era feminista, as mulheres terão ansiedades sobre o feminismo. No terror canibal de meninas, as mulheres que não se importam com a fome — aquelas que são confiantes, egoístas, que vão atrás do que querem, sem terem vergonha; as que se comportam mais como mulheres “fortes” e “empoderadas” — não podem satisfazer a sua fome sem devorar outra pessoa viva.

Algumas críticas afiadas do feminismo estão embutidas nessas histórias. Oyeyemi não está sozinha em conectar a feminilidade devoradora à brancura. Em Raw, por exemplo, o principal objetivo do desejo canibal e / ou sexual é o companheiro de quarto muçulmano de Justine (Ele também é gay, não que isso impeça que Justine e sua irmã mais velha briguem por ele como cães atrás de um bife abandonado.). Em Desejo e Obsessão, os crimes da canibal só são possíveis por causa dos cuidados constantes que recebe de seu marido, quem (embora nunca seja mencionado) também é o único personagem negro do filme. E em Garota Infernal — que recebeu tanta atenção por ter sido escrito por uma mulher branca, Diablo Cody, que poucos críticos notaram que foi dirigido por uma mulher asiática — Jennifer começa seu hábito de comer meninos, não com um dos atletas populares, mas com um estudante de intercâmbio indiano, a quem ela acha que ninguém vai sentir falta. Quando ela o comeu, ela diz: “Eu sabia o que tinha que fazer para ser forte”. Esses filmes têm muito a dizer sobre o tipo de “força” feminina que só pode existir à custa de outras minorias.

Mas mesmo as mulheres mais evoluídas e progressistas, mesmo as mulheres que são elas próprias de cor ou que vivem na intersecção de algumas opressões, estão presas nesse medo feminino em particular: que para pegar o que você quer, você tem que tirá-lo de alguém, e para exercer poder, você tem que exercer um grande poder sobre outra pessoa. Ser gentil, ser amada e ser poderosa não são coisas que podem facilmente coexistir em uma única mulher. É por isso que, em muitos desses filmes, eles não o são.

Ginger Snaps (2000)

O espectro do desejo feminino sem limites e sem culpa é tão aterrorizante que diretores são frequentemente forçados a dividi-lo ao meio, criando dois personagens com o mesmo apetite — aquele que tenta resistir a seus impulsos e aquele que cede a eles. Em Raw, os desejos canibais de Justine não são nada comparados aos de sua irmã. Em a Garota Infernal, a doce e nerd, Needy, se dedica tanto a derrotar a adolescente alfa Jennifer e acaba compartilhando de seus poderes demoníacos. Podemos ver essa dinâmica também em Ginger Snaps; apenas uma das duas irmãs realmente se torna uma assassina como resultado de sua licantropia, mas ambas acabam infectadas. Assim, mesmo com o terror, um gênero que praticamente existe para se brincar com os tabus, a ordem precisa ser restaurada reiterando a mesma velha moral: uma mulher boa nega o seu apetite e uma mulher má se satisfaz.

Ambas as mulheres, no entanto, estão morrendo de fome. E, como já aprendemos, ninguém pode passar fome sem beliscar alguma coisa.


Ok, tudo bem: vamos falar sobre os vampiros.

Que os vampiros são canonicamente no terror considerados O Monstro Para Garotas é irônico, já que, literalmente, todos os outros monstros clássicos seriam uma escolha mais sensata. Lobisomens estão ligados a ciclos lunares. Frankenstein é sobre gravidez e parto. Drácula — o principal diamante para o subgênero de vampiros, embora não seja o primeiro — não é apenas escrito por um homem, é também explicitamente misógino. Por baixo de todo o nevoeiro gótico, Drácula é uma história sobre como as mulheres drenam a força vital dos homens apenas por existirem. Embora Drácula seja a atração principal, todos os outros vampiros do livro — as Noivas, Lucy Westenra, e até mesmo um pouco a Mina Harker — são mulheres sexualmente ativas.

No entanto, nos últimos 20 anos, o rosto dos mortos-vivos — Lestat, Louis, Angel, Spike, Stefan, Damon, Eric, Edward, mais qualquer merda que esteja acontecendo naqueles livros da Anita Blake (no que eu peguei para ler nas férias, ela estava em um relacionamento poliamoroso com um … homem-pantera ???) — tem sido um vampirão sexy, criado explicitamente para servir ao olhar feminino. Isso vale para os vampiros tradicionais e para as atualizações do século XXI: Hannibal Lecter, nosso conde Drácula contemporâneo, tornou-se um objeto de desejo tanto na sua encarnação como Anthony Hopkins quanto através da intencionalmente amigável fanfic slash de Bryan Fuller, em Hannibal. Esse é o ponto que chegamos no jogo heterossexual, em 2017. De homens reclamando de suas esposas sugando-as, chegamos às mulheres que fantasiavam sobre homens que as comiam vivas.

Comer carne é um ato de dominação. É como estabelecemos o que é humano e o que é animal (Nós tomamos essa distinção como certa até as linhas ficarem um pouco borradas; comer galinha não incomoda a maioria, mas imagine-se comendo um chimpanzé e você ficará enjoado.). Comer também é sobre classe: o que você pode bancar comer e o que você não pode, o que você gosta de comer e o que não gosta; falam quem você é e como você é categorizado na hierarquia social. O vampiro — um aristocrata canibal — cujos gostos são tão refinados que ele pode se dar ao luxo de tratar toda a humanidade como gado — fica na intersecção dessas duas ideias. Mas então, todas as mulheres do planeta também estão.

“Todos os animais têm as mesmas partes”

Algumas mulheres erotizam o domínio sexual masculino, ou até mesmo a violência masculina, que é onde entra em cena a fantasia de “namorar Hannibal”; há algo atraente na noção de atrair ou domar um predador. Ainda assim, a predação masculina e o seu domínio assumido são profundamente desagradáveis ​​fora do reino da fantasia. A ideia de mulheres como bens de consumo — brinquedos entregues a homens de sucesso, “troféus” que podem ser mostrados aos amigos — está tão profundamente enraizada em nossa cultura que é a ideologia orientadora do nosso presidente. Assim, a complicada relação das mulheres com a alimentação ganha mais uma complicação: as mulheres são simultaneamente consumidoras e objetos de consumo.

Seu status, afinal, sempre flutuou perigosamente perto de “animal”: toda vez que uma mulher desagrada um homem, ela se torna uma vaca, uma vadia, uma megera. A ideia de seus corpos serem usados ​​violentamente para satisfazer o desejo de outra pessoa está longe de ser irrealista. Mesmo na publicidade, a comida usa a linguagem do feminismo (pare de olhar para mim como se eu fosse um pedaço de carne, exige um hambúrguer arrogante), enquanto as mulheres são esculpidas em diagramas de açougueiro ou penduradas em ganchos de carne em nome de causas políticas progressistas. Todos os animais têm as mesmas partes.

“Pare de olhar para mim como se eu fosse um pedaço de carne”

Quanto mais abertamente feministas esses filmes são, mais explicitamente eles conectam a fome das mulheres à violência sexual masculina. Desejo e Obsessão provavelmente não seria o primeiro filme que eu escolheria para um público feminista — em resumo, são duas horas de absolutamente nada acontecendo, então algumas cenas de estupro extremamente perturbadoras — mas memorizam, literalmente, a metáfora. Agressão sexual é canibalismo e canibalismo é agressão sexual (A cena do sexo oral dá tão certo quanto você esperaria.) Ou, para algo um pouco mais sutil, basta olhar para essa foto, de Garota Sombria Caminha Pela Noite:

A cena inteira é nitidamente dividida em dicotomias tradicionais: masculino e feminino, predador e presa. Mas ninguém está seguro quando está cercado por tigres. O horror começa quando a mulher atravessa a outra metade do quadro.

Como a vampira sem nome de Amirpour, Sheila Vand tem uma energia contemporânea e cool — ela se veste como Jean Seberg e parece alarmantemente com uma jovem PJ Harvey — que é fácil esquecer que Garota Sombria Caminha Pela Noite é, de muitas maneiras, apenas um retorno do gênero às suas raízes vitorianas. Mais uma vez, o vampiro é uma mulher sedutora e suas vítimas são homens.

Mas eles são homens maus. Onde Stoker temia o apetite das mulheres, Amirpour nos encoraja a deleitar-se com ele. Sua vampira é uma vigilante, e todo homem que ela come é mostrado violando uma mulher sexualmente, primeiro. Garota Infernal é mais ambivalente em relação a Jennifer, mas é bom lembrar que sua fome demoníaca vem do assassinato cometido pelo cara por quem ela tinha uma queda. De fato, o filme é parcialmente baseado no assassinato de Elyse Pahler em 1995, no qual os garotos de uma banda local não apenas mataram Pahler, mas também sexualmente violaram seu corpo por semanas depois do ato. Pelo menos, neste filme, o cadáver faz a maior parte da violação. Analisados ​​com cuidado, os filmes de canibais femininos são primos de outro subgênero desigualmente feminista: os filmes de rape- revenge.

Cena de Amores Canibais, onde o ritual de canibalismo faz alusão à um estupro.

Mais uma vez, reduzir tudo à sexo é muito simplista. Classe, o outro grande significante de vampiro, invariavelmente entra em cena: o personagem de Vincent Gallo em Desejo e Obsessão, “gosta de dinheiro”, o que evidentemente o levou a um caso de canibalismo sexual. Os garotos de Garota Infernal sacrificam Jennifer em troca de fama e fortuna como uma terrível banda de rock do final dos anos 2000. Em Garota Sombria Caminha Pela Noite, a primeira vítima, e a mais chamativa, da vampira é um traficante de drogas que aterroriza economicamente o bairro. No entanto, na grande economia do querer, onde a comida é o sexo, e o sexo é o capitalismo, apenas um gênero (e etnia) é encorajado a tomar — e tomar, e tomar, enquanto todos os outros devem se comportar e esperar serem tomados.

Cena de Desejo e Obsessão. Para ser justa, o cara invadiu a casa dela, então…

Transgressivamente, os filmes de garotas canibais podem nos presentear com a capacidade das mulheres de aproveitar e devorar, mesmo porque elas têm que pegar tudo dos homens, que são os que têm tudo. Esses filmes nos lembram que há uma distinção entre morder e morder de volta.


Nós carregamos a nossa história conosco. O terror das mulheres no século XXI, traz a marca de toda mulher que veio antes. Prevenge, de Alice Kent, ou O Babadook, de Jennifer Kent — são sobre uma luta, possivelmente demoníaca, de uma mãe solteira e de uma mulher sendo incitada a matar por seu feto malvado — atraem o terror reprodutivo de Shelley. Ambos White Is for Witching e Iluminadas, de Lauren Beukes, incluem a maioria das metáforas Jacksonianas: uma casa mal-intencionada e malvada.

Essas histórias são importantes; a profundidade de nossas raízes determina nossa capacidade de florescer. No entanto, esta terceira corrente — a corrente da fome, do desejo feminino — não pode ser ignorada. É uma parte inevitável de qualquer renascimento feminino, a pergunta que as mulheres invariavelmente se perguntam quando estão prestes a ir em frente: Posso ter isso? Eu quero isso? Eu mereço isso?

Essa pergunta só desaparecerá quando o querer da mulher se tornar comum; quando permitirmos às mulheres as mesmas ambições e desejos, as mesmas gratificações do dia a dia, como todos os outros. Quando isso acontecer, talvez, a maré canibal vai diminuir. Mas, nesse dia, teremos uma nova história para contar, um novo monstro que se repete nos pesadelos das mulheres. Nós nunca estamos completamente fora da escuridão. Ser mulher — ser humano — fornece infinitas oportunidades para o terror.

E essa foi a última parte da série de textos da Sady Doyle! Obrigada por acompanharem, e qualquer sugestão de textos que vocês gostariam de ver traduzidos (na temática feminismo e cultura pop), são bem-vindos!

Tchauzinho!