Ler Terror Pode Nos Armar Contra Um Mundo Horripilante

Por que ler terror quando o mundo já é tão assustador?

Esse texto é uma tradução livre do texto: “Reading Horror Can Arm Us Against A Horrifying World”, escrito por Ruthanna Emrys (@R_Emrys) para o NPR Books postado no dia 05 de agosto de 2018.

Por que ler terror quando o mundo já é tão assustador?

Tom Lehrer disse que a sátira se tornou obsoleta quando Henry Kissinger ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Mas ainda estamos aqui, nos esforçando ao exagerar as loucuras dos poderosos até que o seu poder não possa mais nos atingir. O terror tem essa mesma forma de resistência. Por mais aterrorizante que o mundo se torne, ainda voltamos aos horrores imaginários para tentar entender o sentido disso tudo. Citando outro artista favorito, Neil Gaiman disse: “ Contos de fada são mais do que a verdade. Não porque eles nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados” (tradução encontrada no blog Poetriz). O terror, que é descendente desses contos, nos conta mais sobre os monstros- e também as estratégias para derrotá-los.

Os males que são banalizados no mundo: crianças levando tiros; vizinhos sendo exilados; nossos semelhantes sendo, em um instante, enquadrados como ameaças desumanas — são horríveis, mas não são o terror. O terror promete que o arco da trama acabará depois que ele ressurgir. O terror gira em torno do mal cotidiano, mostrando a sua face fantástica, literalizando o seu coração corroído em algo mais dramático, algo mais fácil de imaginarmos encarando frente à frente. O terror nos ajuda a nomear os pecados originais dos quais nascem as coisas horríveis.

Algumas das minhas histórias favoritas de terror são aquelas em que os terrores do mundo real se transformam gradualmente em algo mais estranho. Mariana Enriquez, recentemente traduzida para o inglês, em Things We Lost in the Fire (também traduzida aqui no Brasil, As Coisas que Perdemos no Fogo foi lançado ano passado pela editora Intrínseca) descreve uma Buenos Aires em que a pobreza e a poluição inevitavelmente se transformam em cadáveres ressurgidos e cultos de sacrifício. Carrie de Stephen King só destrói sua cidade porque abuso e intimidação alimentam sua telecinese de adolescente frustrada. O clássico, O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman, parte da simples claustrofobia psicológica das relações bem-intencionadas ao machismo profundamente arraigado.

Tudo isso dá ao terror a oportunidade de ser radicalmente fortalecedor e de condenar esses males aos mais tenebrosos fins. Mas nem sempre isso acontece. Em muitas histórias, a Coisa Que Não Deveria Acontecer é simplesmente alguém violando o status quo, ou forasteiros simplesmente existindo. H. P. Lovecraft é um bom exemplo— suas divindades destruidoras de mundo são adoradas principalmente por aqueles que não têm outros meios para obter poder: imigrantes, pessoas de zonas rurais, pessoas de pele escura, são os que tentam convocar terríveis entidades. Seus monstros estão intimamente ligados a doenças mentais e a “miscigenação”. Suas obras insistem, repetidas vezes, que a civilização depende de manter tais criaturas fora de vista e da mente. No entanto, Lovecraft (convenientemente morto e ostensivamente um “ homem de seu tempo”) não é o único. Quantos escritores do terror moderno ainda são atraídos ´pelo frisson do medo de vilões incapacitados, ou a ameaça da “loucura”, ou qualquer outra coisa que aconteça e que seja conveniente? Quantos só podem imaginar ameaças que violem o conforto das cercas brancas, e que são superadas quando a derrota do monstro permite o retorno a esse conforto daqueles que sempre o tiveram em primeiro lugar?

Embora seja tentador escrever o terror a partir da perspectiva dos que ficam mais facilmente chocados — aqueles em posição de acreditar que o universo distribui esse conforto igualmente a todos — o melhor do terror moderno retrata horrores adequados para aqueles que já têm medo. Mira Grant (também conhecida como Seanan McGuire) é brilhante nisso. Sua trilogia Newsflesh amplifica os perigos do jornalismo político, consciente de que a resposta das autoridades ao desastre pode fazer a diferença entre o apocalipse zumbi e a inconveniência dos zumbis. Victor Lavalle, outro favorito, encontra maneiras de perturbar os protagonistas que já enfrentam segregação, violência policial e a indiferença cósmica do preconceito cotidiano.

O terror como gênero é construído em torno de uma verdade: que o mundo é recheado de coisas terríveis. Mas o melhor terror nos diz mais. Nos diz como viver com medo. Nos diz como distinguir o mal real das sombras inofensivas. Nos diz como revidar. Nos diz que podemos lutar contra o pior dos males — quer todos sobrevivamos ou não — e ainda sermos dignos, de depois, contar as nossas histórias.

Até mais ;)