Artigos e outros poemas

(esse texto foi publicado originalmente em http://tinyletter.com/mulheresqueescrevem)

Eu tenho repetido, mais que outros anos, que as únicas coisas que eu sei fazer nessa vida são ler e escrever. Eu nunca tinha me dado conta de que eu sou, querendo ou não, escritora. Mesmo que seja de artigos acadêmicos que ninguém vai ler ou de poeminhas de amor passageiros que ficam como diários no computador, pra eu voltar quando for mais velha e ter orgulho de ter sentido alguma coisa. Porque é sobre isso que se trata escrever e viver: às vezes se adequar às regras de citação, outras tantas se expor e ralar a cara no chão, fazer poesia. É que nem amor: tem uns que a gente fala, sente sem medo, dói de tanto sentir. Outros, adequadinhos a esses dias tão irônicos e descolados, a gente só pode sentir pela metade — por que é só isso que nos é permitido. Se declarar apaixonado, dizer o quanto o outro faz bem, o quanto nos sentimos respirando de novo: ó, quanta ingenuidade para um 2015 tão niilista. Dizer o que pensa só em terceira pessoa. Falar em primeira pessoa nesses amores-artigos é coisa proibida, assumir a angústia que é sentir, pensar é para outros: pros poeminhas, essas bobagens. Assumo aqui minha responsabilidade: muitas vezes poesia, outras vezes referência bibliográfica, eu mesma tenho receio dessa enxurrada de sentimentos. Eu também canso. Em 2015 estive mais cansada do que nunca. Mas viver é mesmo coisa que tira o ar de tão bonito. Tem dessas surpresas e eu, ainda que resista, respiro e sinto uma brisa chegar. Mesmo nas dissertações e monografias da vida, nos amores da noite, em que a declaração fica pela garganta, em que tudo pede ABNT, notas de rodapé, tato — mesmo nesses — há ali muito sentimento. Repara nas entrelinhas. Ele tá justificado, com espaçamento 1,5, mas ele tá ali, corajoso: pronto pra virar poema.