eu não estou pronta

Eu não estou pronta. A estrada que me atravessa é grande, cheia de poeira, esburacada. Eu não estou pronta. Eu quero ser um dia. Nunca chegará. Tantos caminhos possíveis e é só o que me constrói e o que me destrói que faz ser quem eu sou. 
 
 O Rio vai me destruindo aos poucos. A guarda municipal, os mata-leão, o trânsito. As duas horas de ônibus, quando chove, enche, os cassetetes, as meninas e meninos que têm asco. Me destrói. Me destrói o medo, o riso exagerado de quem não pega o trem, de quem não passa do túnel. Me destroem os fios, a bochecha funda; me destrói a pequena burguesia, o bafo, a falta do toque.
 O Rio vai me construindo aos poucos. As esquinas, os botecos com cheiro de cloro, o som alto dentro do ônibus, o riso alto de quem suou, o afago de quem pensa. O Rio me constrói. A linha do trem, o mercadão cheio em dia de Cosme e Damião, minha mãe sorrindo pra quem mora ao lado. Dar doce, cadeiras na calçada, cerveja gelada com sol quente. 
 Os meus amigos me constroem. Subir num guincho, beber ‘de mel’, bater palma junto. Cantar pagodes, dormir na minha calçada, o olhar cúmplice quando toca a música. Me constroem. Comer junto, beber junto. Andanças e estadias. Os fios. Choros não contidos, abraços macios. Os meus amores me destroem. A prepotência, a solidão, a culpa. As farpas ditas com sorrisos no rosto, me destroem. O não dito, a tristeza travestida de rotina. Os meus amores me constroem. Os livros, as mãos, as músicas. Os sorrisos, o sexo, a vida compartilhada. Os planos mal feitos, feitos pra dar errado. Tocar a pele, cortar cebola, fritar o alho. Cada amor sozinho, sorrindo de longe. Me constrói a cada virada de rua, a cada manhã virada, a cada olhar de rabo de olho. Eu sou todos eles, todas as esquinas, os chãos de mosaico, os subúrbios, os ponto de ônibus. Eu sou o óleo de fritura, os vira latas soltos. Como estar preparada, acabada? Como viver sozinha? Eu não estou pronta.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Camila Pizzolotto’s story.