Teoria e prática

Há uma fala recorrente segundo a qual teorizar é fácil, colocar em prática é que é difícil. É uma ideia antiga que circula por aí e ela é, em parte, verdadeira. De uns tempos pra cá, tenho ouvido variáveis dessa frase tanto fora da academia — em ocupações, coletivos, rodas etc — quanto dentro dos próprios meios universitários. Não só falas, mas também sinto que a ideia geral da frase entranhou em nós. A nossa geração tem fome de prática, de ação, de rua. E isso em parte é bastante positivo. A prática, a realidade, deve ser nosso objetivo final quando pensamos em mudanças radicais, transformações estruturais; a realidade também deve servir de ponto de partida para pensarmos o mundo, para refurtarmos nossas teorias; a observação detalhada da prática e daqueles que vivem majoritamente da ação não devem ser negligenciadas.

A valorização da prática pelos intelectuais, dos pensadores, dos produtores culturais é bem intencionada: numa tentativa de desmistificar o conhecimento formal, oficial, fomos aos poucos desconstruindo e diminuindo o peso que tem a teoria presa nos muros da universidade tem. Fomos aos poucos valorizando a prática como forma de conhecimento do mundo, no fazer, no processo, o aprendizado da realidade, da rua. Eu mesma tenho, cada dia mais, me atentado para o poder de transformação da vivência nas minhas análises sobre o mundo, como ela molda a minha sensibilidade, meus saberes. Valorizar a prática é valorizar conhecimentos que não os escolares, aqueles aprendidos não por manuais, mas pela intuição, pela experiência, pelos ancestrais.

Mas algumas questões tem martelado na minha cabeça. Há um certo desdém pelo estudo e pela elaboração quando criticamos a teoria. Vi algumas vezes gente se orgulhando por não ter lido isso ou aquilo, porque o que importa é o que está aí fora. Vi algumas pessoas desvalorizando os saberes da pesquisa sincera na tentativa de elevar a prática, a tal da vivência. Pior: vi gente que, de dentro da universidade, acha que desvalorizando a leitura, legitima a “rua”. Adivinhem pra quem diminuir o peso da teoria, do estudo não faz diferença?

Quando falo de teoria não digo sobre masturbação mental, do ego ou do status do título “pensador” ou “intelectual”: falo do exercício diário e sincero da elaboração, do ofício trabalhoso que é ler e reler livros até entendê-los (porque, sim, há algumas coisas que são difíceis de entender). Falo da teoria que todos, sem exceção, podemos tecer em nossas cabeças. Quando a teoria em geral é desvalorizada para que somente a “vivência” seja elevada, estamos dizendo indiretamente que as pessoas que não estão dentro da academia não elaboram, não podem ser intelectuais. Desvalorizamos inclusive a possibilidade de uma outra teoria, que não essa feita dentro de gabinetes e sem contato com o mundo real. Eliminamos a possibilidade de que essas pessoas, as “da prática” ou da “vivência” nos ensinem a elaborar de outra forma. A ideia de que todos são intelectuais em potencial não é minha, mas de Gramsci. Esse lampejo não me veio à toa, nem sozinha: ele foi construído com livros, autores diversos, observação, mas também com debates. Os debates, pra mim, também são formas de teorizar. Na fala sintetizamos coisas que não conseguiríamos só em pensamento e ter gente pra pensar junto é de um enriquecimento profundo. Aconteçam esses debates em casa, em bares, em universidades ou em esquinas.

A prática sem teoria é sinal de nosso tempo. Fazer coisas sem ter elaborado antes, sem que as ideias estejam mastigadas, sem que tenhamos batido e rebatido nelas como socador em carne é um buraco negro. Pensando em termos de transformações estruturais então, nem se fala. Desvalorizar a teoria para valorizar a prática é superficial e raso, quando podemos tentar, mais uma vez, aliar as duas coisas. A ação sem pensamento é desorganizada e gera poucos frutos a longo prazo.

Tem algumas coisas que não acho palavras certas pra descrever: uma delas é como a leitura, tanto literária quanto de pesquisa, mudou a minha vida. A teoria quando direcionada pra ação, essa sim é transformadora. De novo recorri à Gramsci: pra ele, só a educação que dá ferramentas para seus alunos agirem é que é revolucionária. Estou certa de que o estudo sensível, aquele que encontra-se frente à frente com o autor, aquele que rabisca as margens do texto, aquele que aprende, muda, aquele que discorda, aquele que faz esforço pra se colocar no lugar do outro, aquele que é sacrificante muitas vezes, chato, doloroso, mas tantas vezes prazeroso, esse sim é uma das ferramentas de mudança do mundo, junto com tantas outras.

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