Redescobrimento

Quando eu e minha amiga estávamos com tudo fechado pra vir pra Califórnia, as frases que eu mais escutava eram “nossa, vai ser incrível” e “não se prenda a nada, você vai voltar com outra cabeça”. Essa última aspas, eu repetia pra mim mesma dia após dia, como um mantra. Eu sempre me questionava: como mudar tanto em pouco tempo? Provavelmente eu volte com uma maior bagagem cultural e com mais jogo de cintura, mas mudar quem eu sou? Ah, isso não acontece tão rápido. Engano meu. Estou em território americano há exatos 72 dias e eu sou uma pessoa completamente diferente da que chegou aqui no dia 17 de setembro.

Aqui eu aprendi a lidar com inseguranças e que eu sou muito mais capaz do que eu imaginava. Enxerguei que a língua era uma barreira, mas eu passei por ela. Consegui manter conversas, trocar ideia sobre política e apresentar um trabalho da minha área, tudo isso em inglês. Sempre achei que meu inglês era suficiente pra me virar, mas foi muito além disso.

Aqui eu também aprendi a valorizar muito mais meu país. Infelizmente, eu tive que ficar longe de tudo que me fazia tão feliz: a comida, as pessoas, a música e o calor humano pra ver que essas pequenas coisas tão rotineiras fazem uma grande diferença na minha vida. Aqui eu pude enxergar como o brasileiro faz um trabalho incrível de comunicação e que minha formação acadêmica é tão boa quanto a de qualquer outra pessoa daqui.

Aqui eu comecei a curar um coração partido. Mais uma vez, eu vi que não era o fim do mundo. O amanhã sempre chega e ele vai ser mais ensolarado, feliz e reconfortante. A gente se reinventa, cria novas prioridades e estabelece novas metas. E o mais importante disso tudo: pela primeira vez focando apenas em mim.

E qual tem sido o maior aprendizado? Me conhecer. Aqui, eu passo muito tempo sozinha pensando em coisas que afligem qualquer ser humano: o futuro, o passado, relações interpessoais, carreira e valores. Mais do que nunca eu pude pensar em tudo que já fiz na vida e o que podia tirar de lição de cada situação. Tentei encontrar explicações pra cada atitude que tomei nos últimos tempo e as escolhas que me fizeram chegar aqui e ser quem eu sou hoje.

Eu aprendi a curtir minha própria companhia. Aqui o tempo parece passar mais devagar. Eu não vivo mais a rotina intensa de antes. Eu não posso mandar mensagem pra uma amiga no meio da semana e chamar pra tomar uma cerveja, porque o dia foi difícil. Eu não tenho a opção de tentar me distrair jogando conversa fora com os amigos ou pedir aquele abraço de “vai ficar tudo bem” pra minha mãe. Então eu me resto e tenho que encarar minha tristeza, minha angústia e minha ansiedade. Claro que não posso negar que sempre tive o apoio por mensagem de amigos próximos, mas nada se compara ao contato físico.

Ainda tenho 30 dias pela frente na terra de Trump e, sem dúvidas, ainda vou mudar muito até 29 de dezembro. Mas, sem dúvidas, hoje eu consigo chegar mais perto da frase “você é suficiente”.