A romantização dos relacionamentos abusivos na literatura

É muito comum encontrarmos na literatura, principalmente na adolescente, um fator comum que movimenta a história, ou até mesmo é a motivação principal dela: o fator relacionamento afetivo. Um casal — em sua maioria, heterossexual — que passa por diversas provações, mas que no fim, acaba junto. Até aí, nada de alarmante.

Mas tem sido muito comum encontrar nesses livros, relacionamentos abusivos que são romantizados por seus autores, e é aí que mora o perigo para aqueles que consomem tal literatura. Veja bem, livros, assim como qualquer outra mídia, tem um grande poder influenciador nos seus consumidores, ou seja, naqueles que os leem, principalmente quando sua história ganha ampla repercussão pela internet e outros meios de comunicação, alcançando um grande número de pessoas, e consequentemente, leitores. Muitas vezes, esses leitores são de pouca idade, e por isso, às vezes tomam como certo a ideologia e os “ensinamentos” que a história traz, afinal, ainda estão em processo de formação de personalidade e de seus princípios. Então, se esses jovens leitores se defrontam com uma história que romantiza uma relação afetiva abusiva, fica difícil para que eles identifiquem o que é um relacionamento saudável, e o que é um relacionamento que ultrapassa os limites do aceitável.

A romantização geralmente ocorre de forma muito discreta, sem parecer forçada ou exagerada, é quase… natural (o que deixa a situação muito mais preocupante). Essas atitudes ocasionalmente se escondem no clichê do personagem “bad boy”. O personagem que sente ciúmes exagerado da personagem feminina, que explode de uma hora para outra — mas logo em seguida pede desculpas, afinal, é da personalidade dele mesmo ter esse temperamento difícil –, que a pega pelo braço em diversas situações, sendo violento até. Essas ações são colocadas como fofas ou românticas pela personagem ou pelo narrador de forma muito sutil, dando a entender que o que o cara fez foi apenas porque ele ama a sua parceira demais, e porque ele não suporta a ideia de perde-la. É comum que nessas histórias, esse tal personagem “bad boy” se redima e vire uma pessoa boa no final das contas. E aqui, temos outra situação que pode ser perigosa — não importa se o cara é abusivo ou má pessoa, se o seu amor for forte o bastante, ele vai mudar. Alerta de spoiler: pessoas abusivas não mudam.

Isso acontece muito em livros juvenis e também, em muitas fanfics espalhadas pela internet, e isso se torna preocupante, porque segundo a pesquisa Retratos da Leitura do Brasil feita em 2011, 52% dos leitores são do sexo feminino, ou seja, uma grande parcela de mulheres vai consumir essas histórias, e junto com elas, a ideia de que se o cara é ciumento demais, ou tem suas mudanças de comportamento abruptas e violentas, mas depois pede desculpas, é porque ele te ama demais. E hoje, vivemos numa sociedade brasileira em que 3 entre 5 mulheres já sofreu algum tipo de violência em seu relacionamento (pesquisa realizada pelo Instituto Avon em novembro de 2014).

Pessoas inseridas em relacionamentos abusivos, muitas vezes não se dão conta de que estão num relacionamento desses, ou então, quando chegam a cogitar estarem em um, pensam que estão ficando loucas ou exagerando, e aí então, elas leem esse tipo de história, e é aí mesmo que acham que não existe nada de errado, quando muitas vezes, existe sim.

Falei bastante na questão da leitura adolescente, mas esse tipo de situação não é exclusividade da leitura juvenil, muitas leituras voltadas para o público adulto também carregam essa ideia do personagem bad boy, mas aqui ele vem na forma de um homem rico, jovem, bem resolvido e que está disposto a fazer tudo por você — desde que você não o tire do sério.

Portanto, a minha mensagem é que se você está escrevendo um livro, e tem um casal principal em sua trama, tome cuidado em como esse relacionamento vai ser retratado, e se por acaso, for escrever um relacionamento abusivo, que seja em forma de alerta e não romântica. Afinal, não há nada de romântico em se relacionar com uma pessoa abusiva.

OBS.: Lembrando sempre que relacionamentos abusivos não são exclusividade de relacionamentos heterossexuais. Relacionamentos homossexuais também podem ser abusivos.