Sobre amores às escondidas e presentes incomuns

Regata ou blusão? Vestido ou calça jeans? Vanessa* estava em dúvida sobre o que vestir para ir à aula naquela terça-feira. O ar-condicionado da sala sempre marcava 17 graus, era ordem da diretoria do cursinho. Nem mais nem menos. A dúvida não surgira em consideração a temperatura e sim porque as terças não mais eram dedicadas somente ao estudo: era também o dia que Roberto* havia reservado para encontrá-la, longe de qualquer conhecido e de olhos curiosos.

Ele costumava sair do Centro de Fortaleza no Dobló da Pousada Aprochego* sempre às 13h15m. Passava as tardes de terça com ela em motéizinhos modestos, porém limpos. Dizia aos funcionários que estaria ocupado com uma capacitação em marketing. A esposa Ana Márcia* presumia que ele passasse todo o dia cuidando da administração do local, negócio familiar que estava sob os cuidados de Roberto desde 2003, enquanto ela se via às voltas com clientes no escritório de advocacia tributária onde trabalhava.

Manter o romance exigia demais de Vanessa. Tinha abandonado os estudos ainda no segundo ano do ensino médio e acordar cedo para ir as aulas do supletivo era um esforço que ela fazia em nome do amor. Os três meses de encontros clandestinos com Roberto eram suficientes para que um assunto fosse abordado entre os dois: se ela era amante, queria estar inteira nesta função. Entregue. E toda amante, pensava, além de conhecer os planos frustrados do ser amado no casamento, também possuía outra característica marcante: era quem merecia mimos, presentes e surpresas que não encontravam mais sentido e espaço numa relação desgastada.

Foi aí que tomou a iniciativa e pediu a Roberto que lhe comprasse presentes. Desde que recebera um provador de perfume na porta da American Imports não esquecera aquele aroma. Havia também um vestido muito bonito na Lenita Negrão do Iguatemi. Era lindo na modelo e ficaria ainda melhor se destacasse seus quadris largos. Mas o que Vanessa queria mesmo era um celular novinho com uma boa câmera para registrar momentos românticos dos dois. “E agora, Roberto?”

— 900 reais num celular? As coisas hoje em dia foram feitas para dar o prego. Não dura nem até o final do ano. Caro demais.

— Achei que poderia te pedir. Não faço nenhuma exigência a você, ao contrário da outra lá.

— Celular não leva ninguém a lugar nenhum.

— E como é que a gente vai marcar de se ver, se o meu tá pifando? Como é que a gente vai registrar nossos encontros?

— Vamos fazer assim: em vez do celular, eu te pago um SUPLETIVO pra você terminar o ensino médio e arrumar um emprego decente. Você merece mais. Se faço isso é porque quero te ver crescendo ao meu lado. Quando terminar os estudos, você faz uma faculdade, começa a trabalhar e compra um celular bom.

— Um supletivo? Isso lá é presente que preste!

— Isso é pra você ver como eu te amo e cuido de você. Nosso relacionamento tem futuro!

Sem muito a argumentar, Vanessa não resistiu ao “como eu te amo e cuido de você” e concordou em fazer o supletivo. Em três meses ela teria o segundo grau completo, mas não viu a oferta de Roberto como boa oportunidade. Para ela o papel de amante era confortável e queria segui-lo à risca, com direito a presentes e encontros furtivos. “O que a gente não faz por amor, né?”

O envolvimento com Roberto estava cada dia mais forte. Dali a um ano a esposa dele iria embora para o Amapá, onde recebera uma proposta de emprego mais interessante. E Vanessa provavelmente estaria resolvendo questões de biologia num cursinho pré Enem. Era feliz.

*Essa história de amor e desencantamento é real. Boa demais para não virar um miniconto. Pude escrevê-la com a autorização de “Vanessa”, que pediu para que todos os nomes fossem trocados a fim de evitar constrangimentos.

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