Toda a cidade quer saber

Foto: Jornal O Povo

Hoje cedo assisti ao jornal. O mote foi a chacina da Grande Messejana, a maior da história de Fortaleza, 11 morreram e sete ficaram feridos, deu na capa do outro jornal, tá na boca do povo, na conversa do cobrador com os passageiros, dos passageiros entre si, é a primeira coisa que a secretária do trabalho me perguntou se eu tava sabendo. É o assunto do momento.

Onze. Lembrei de uma palestra na faculdade, deve ter sido em 2013, quando a jornalista Erilene Firmino disse mais ou menos assim:

“Todo final de semana o IML e o IJF (Instituto Dr. José Frota, maior hospital de urgência e emergência do Ceará) divulgam as estatísticas. 35 mortos, 11 acidentados, uma coisa assim. E é só isso! São só números! Ninguém se importa que esses números são vidas e ninguém pensa que essas situações mudam a vida de tantas outras pessoas ligadas a quem morreu. O Jornalismo tem que ser feito com sensibilidade”.

É fato que os deadlines, a urgência das informações nem sempre permitem que a sensibilidade seja levada no carro da reportagem. Mas hoje cedo assisti ao jornal. A Secretaria de Segurança divulgou a identificação de nove das onze vítimas, todos homens, a maior parte deles tinha entre 16 e 19 anos e os nomes e idades foram apresentados no jornal. Logo depois, a apresentadora disse:

Bom, agora vamos ao que toda a cidade quer saber, ao que toda a sociedade quer saber: quem era o policial assassinado numa tentativa de assalto?

E aí seguia um perfil do policial morto, Valterberg Chaves Serpa, 32 anos. Ele é o 13° policial assassinado em 2015 no Ceará. Treze! Como é possível? Toda a cidade quer saber! Toda a sociedade quer saber! Dizem que a chacina é retaliação pela morte do policial, é uma das linhas de investigação. Mas e os onze? A vizinha foi categórica: ninguém morre de graça, com certeza não estavam rezando.

Mães chorarão a perda inesperada dos filhos que tinham tudo para ser tudo. Eles serão estampados em camisetas com o céu ao fundo e doídos, velados, sentidos, chorados nas saudades eternas escritas em itálico nas camisetas com fotos de céu e nos cânticos da missa de sétimo dia, nas orações, nos aniversários, no Dia de Finados, na hora do almoço, quando “a bença, mãe?” for escutada mesmo sem ter sido dita.

Talvez nenhum apresentador se exalte, grite, fique vermelho e pergunte aos berros “Cadê o secretário?” num programa às seis da tarde. Talvez ninguém além da família cobre justiça pelas onze vidas. Talvez os amigos das vítimas façam uma passeata pela paz, mas as investigações sejam encerradas daqui a alguns meses. Ninguém morre de graça, com certeza não estavam rezando. O que se sabe sobre as vítimas é que alguns eram ex-alunos de escolas dos bairros que agora estão com medo e que eram jovens. E só.

Para outros, serão onze a menos. Ninguém morre de graça, com certeza não estavam rezando. Para mais alguns, só vai matando mesmo, ninguém aguenta mais. Cadê o secretário? Outros mais lembrarão do antigo major Castro e do seu grupo de extermínio. “Se tivesse uma dessas toda semana a gente já estaria mais seguro”, dirão. Messejana se apavora, Fortaleza não. Mas o que toda a cidade, o que toda a sociedade quer saber é: quem era o policial assassinado?

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