Floreia

Dia desses comprei um saquinho de sementes de margarida. Era bem pequenininho, mesmo. Havia seis sementes. Sete no máximo. Ana me disse pra não plantar, ainda não era época, coisa boa não ia dar. E eu, teimosa, insistente como sempre fui, enfiei os dedos na terra seca com toda a ansiedade de um guri comprando revistas de histórias em quadrinhos em um sábado de manhã. Cada buraquinho, uma semente.

Vai nascer, Ana. Pode apostar.

Ana, que sabe mais do que muita gente acha que sabe, não sabia que mesmo os dias frios fazem florescer dentro de casa. A verdade é que eu gosto admirar a curiosidade dos teus olhos toda vez que tu passa pela janela da minha sala de estar. Ainda não aprendi a olhar teus olhos gigantes sem sentir a boca do estômago dando cambalhotas ansiosas. Saio do eixo, tiro tudo do lugar. Então, coloquei o vasinho no parapeito e te dei algo diferente pra olhar.

Nunca gostei de saber demais. Sabe, meu bem, nem Ana sabe, mas eu sei de coisas a mais. Sei de tudo. Ainda assim, prefiro o silêncio das palavras tolas. Escolhi saber o que ninguém pensa em reparar.

Sei que teu rosto tem a curva do tamanho exato da palma da minha mão direita, que é meu lado favorito da cama e do sofá do hall de entrada. Sei o gosto que tem a saudade dos teus dedos entrelaçados com os meus em um final melancólico de domingo. Sei de cor todas as cores da parede do teu quarto e todas aquelas estampadas na tua pele.

Sei que tu tem um novo fio de cabelo branco. Reparei quando o sol do meio-dia te invadiu, como quem quer me fazer inveja, e refletiu um dourado diferente. Pensei em comentar, mas preferi guardar a singularidade do momento só pra mim. Talvez tu não saiba, sou um pouco egoísta, às vezes. E assim, deixo meu jardim da vida florear por onde passa.

Vão nascer margaridas, Ana. Ah, pode apostar.

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