Tudo novo, de novo

Sempre fugi de novos cadernos em branco. Sabe, eu tenho essa mania chata de criar laços fortes, praticamente inquebráveis, com os cadernos antigos, aqueles cheios de páginas coloridas. Faço questão de usar todas as cores da minha caixinha de lápis de cor — e talvez seja isso o que me prende tanto. Gosto muito de usar a cor azul porque ela combina com aquela camiseta que tu usou no natal do ano passado. Também gosto de amarelo e do laranja mais clarinho, aquele que eu achei que havia jogado fora. Nunca gostei do vermelho. Mas olha só que gozado, foi vermelho a cor que eu mais usei no último caderninho.

Usei três lápis vermelhos. O último deles ficou ruim, caiu a ponta, rachou no meio. Sei que foi presente teu, mas tive que jogar fora.

Semana passada eu comprei um caderninho novo. Esse não tem pauta, é todo branco, branquinho. Acho que agora não tenho mais receio de escrever em linhas tortas, ou, quem sabe, meu subconsciente tenha me ensinado algo valioso, uma daquelas lições de vida que as pessoas só entendem em um dia comum, enquanto tomam chocolate quente numa cafeteria qualquer, em uma cidade bonita, bem longe de casa. Sabe quando dá um estalo e tudo faz sentido?

Pois é.

O curioso é que eu não quero fugir. Não dessa vez. Essa primeira página em branco, a mesma que sempre me fez tremer as pernas, hoje coloca um zilhão de borboletas no meu estômago. E eu sorrio, plena, imaginando todas as histórias, as aventuras, as possibilidades e as cores que minhas mãos colocarão no papel. Puta sentimento gostoso, esse.

Sabe, eu encontrei uma segunda mão pra escrever comigo. Uma segunda mão direita. Chequei duas vezes, só pra garantir. As mãos esquerdas ficam paradas embaixo da mesa, ao lado do lápis vermelho. E que siga a sintonia.

Como de costume, escrevi a primeira linha em azul claro. "É tudo novo. De novo". Esse sentimento tão complexo que Paulinho Moska transformou em poesia bonita. Essa ideia de novas possibilidades pra tudo aquilo que já conhecemos de longa data. Essa oportunidade de usar todas as cores da minha caixinha de lápis de cor.

De novo.

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