Receituário

Ela estatelou no asfalto entre uma calçada e outra feito ovo. Caquinho branco pra todo lado, tudo melado de clara. Gema estourada. Cheiro de ovo.

Não sabia que cabia tanto ovo dentro de casca.

Quem passava fazia cara de nojo. Tampava suspiro com a palma da mão. O passo apertava em câmera lenta. Muito olho procurava o que uma vez foi gema, redonda, inteira. Olho procurava ovo. Mas achava só melado, melado e melado de novo.

Aliás, aquela era a maior dó: uma casca perfeita, durinha, umas curvas lindas. Tão branca. E agora virou tudo um melado só. Foi tudo pro saco.

Passavam balanços de cabeça.

Começou um chuvisco leve, tipo farinha. Caía que nem carinho, carícia nas bolhas que se escondiam no melado. Consolo. Pobre melado, pobre ovo.

Lamento após lamento, o ar de fermento.

Estava quente, estava tenso, e o melado não era mais ovo. O melado virou massa, virou grosso. No bafo, inflou no asfalto untado. Inchado. O odor virou perfume. A cidade, bolo.

E o melado nunca mais foi ovo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.