13/10/2016

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Quando ouvi estas palavras sendo proferidas por sua boca diante daquele cenário incrível que foi a praia hoje à tarde, congelei. “Precisamos conversar sobre tudo que aconteceu com a gente esses dias”. Você não quis conversar sobre a confusão que deu com a sua mãe ontem, nem como foi o primeiro fim de semana na casa do seu pai e muito menos sobre a mina que veio se declarar pra você na semana passada. Você queria falar sobre “nós”.

Dou um trago. Não existe mais nós, pensei. Esse eu e você indissociáveis, que não conseguia viver e respirar direito sem ter a outra ali, presente. Simplesmente esvaneceu-se junto à fumaça que as turbinas do avião levaram na sua viagem de ida pro outro lado do mundo, há 7 meses atrás.

Falamos então sobre nós. Tudo mudou, eu sei. Nós mudamos. Foi foda ouvir você sendo sincera ali, na minha cara. Rasgar o verbo mexxxmo, em alto e bom carioquês. Ouvir você falar que ficou muito mal quando a gente terminou e que não quer se machucar de novo. Prefere algo mais seguro.

Então você não me quer mais? Eu ainda te desejo pra caralho. Você não está pensando racionalmente, você disse… e desde quando eu sou a razão dessa relação? No meio de toda essa conversa, percebi o quanto nós, enquanto seres humanos, temos essa coisa de querer polarizar tudo. Branco / Preto. Limpo / Sujo. Claro / Escuro. Lindo / Feio. Amor / Ódio. Porque a gente precisa desses rótulos mesmo??

Faz 1 ou 2 semanas que vi um documentário que entrevistava certas crianças na faixa de 5 anos, questionando-as sobre questões relacionadas à caráter de bonecos e bonecas baseadas somente em sua aparência — cores de pele claras e escuras. A maioria das crianças tinha aquela velha opinião que a sociedade — e a maioria de nossos pais, avós e tios — tem sobre pessoas negras (leia-se racismo). Mas o que me preocupa de verdade é que o racismo é só a ponta do iceberg. É algo físico, que pode ser de fato materializado. Já a parte submersa precisa ser analisada com muito mais cautela que a externa. Ela é a real detentora de todas essas opiniões e certezas que moram dentro da gente e que, eventualmente, são jogadas pro lado de fora.

Foi então que parei pra me perguntar: até onde eu tenho esse pensamento binário? Essa certeza de que sei muito sobre algum assunto, o tanto suficiente pra não me engajar em nenhuma discussão que o envolva, e menospreze ou invalide a opinião de quem pensa diferente? O que me lembrou uma palestra do Karnal dizendo ser impossível ter um diálogo com alguém extremamente dogmático. Isso porque essa pessoa acha que tem a certeza do que está falando naquele ponto, o que torna o diálogo inviável. Afinal, pra que ouvir algo que se opõe à uma convicção?

Oras, enquanto o grande barato da vida é a dúvida! É não saber se amanhã a gente acorda vivo ou morto. É viver cada dia como se fosse o último. É curtir cada momento, cada suspiro, e nunca deixar pra amanhã o que você pode fazer hoje. É de fato viver sem gerar grandes expectativas do que pode ou não vir a acontecer. Tudo que tiver que acontecer, acontecerá.

No fim dessa reflexão, decidi — não naquele exato momento, acredito que as decisões vem sendo tomadas de forma inconsciente durante dias, semanas, meses, e às vezes até anos até que de fato se materializarem — ali, naquela areia quente, que a vida não foi feita pra carregar um elefante nas costas sabe? A gente tem esse poder de tornar leve. Afinal, as situações que vivemos não nos definem, mas a forma que lidamos com elas sim.

E naquele momento — diante do meu cenário favorito, na minha cidade favorita — escolhi. Escolhi estar comigo acima de tudo. Escolhi viver. Sem garantias. Mesmo que essa decisão tivesse como premissa consequências um tanto trágicas (eu diria). E, um dia após o outro, me respeitar. Me amar. Me entender. Me encontrar. Em mais ninguém além de mim mesma. Tendo a certeza de que de certo na vida só há a morte.

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