Tudo é uma questão de responsabilidade.

“Mas a empresa não é dele. Ela contratou ele para usar o nome dele em roupas, me diga, o que ele tem a ver com isso?”. Vi esse comentário no facebook, numa postagem que discutia a polêmica que recentemente envolveu o famoso jogador David Beckham.

[Pausa pra contar pra vocês a polêmica]

Beckham é Embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância. A H&M, uma grande empresa internacional do fast fashion, tem uma coleção inspirada no jogador. “Wear it like Beckham”. O próprio Beckham escolheu, ele mesmo, dentre uma grande variedade de esboços, as suas peças favoritas, fazendo edições e dando feedbacks. Ou pelo menos é o que diz o site da marca (thanks, google translate). Enfim, imperdível. Quem não quer se vestir como Beckham?

Relembrando, Beckham é Embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância. Ele é maravilhoso, ele faz gols, ele angaria milhões para proteger jovens e crianças em todo o mundo. Ele é sensacional. E ainda é marido de Victoria Beckham, ex spice-girls, melhor grupo pop dos anos 90. Que família.

Então, em uma bela manhã, abri meu jornal, ops, facebook, e vi lá as notícias associando o nome de David Beckham a trabalho infantil. Como assim? Mas ele não luta contra o trabalho infantil? Luta. De onde veio isso? Impossível.

Né não. O jornal The Mail noticiou que uma criança na Birmânia fez uma denúncia revelando que trabalhava na H&M em jornadas de até 12 horas por dia, e que por vezes tinha que se esconder para evitar ser flagrada pelas autoridades fiscais.

Mas e aí, o que Beckham tem a ver com a Birmânia? A culpa não é dele, ele não tinha como saber. Ele só emprestou o nome. “O que ele tem a ver com isso”, perguntou aquele querido do facebook.

Pois bem, segurei meus dedinhos. “Tu te tornarás eternamente de boas pelas tretas que evita” — é esse meu lema nesse mundo louco pós-moderno em que todo mundo só quer discutir e gritar sua opinião. Respirei fundo, fui tomar um café. E pensei, quero escrever uma crônica sobre isso. Cá estou eu. Talvez criando uma treta bem maior. Calma, caro leitor, minha intenção com este texto é apenas fazer você pensar. Não vamos brigar, ok? David, não é nada pessoal…

Sem entrar no mérito da questão, sem discutir se a denúncia é verdadeira ou não (deixo essa pra H&M e Beckham), vamos apenas nos inspirar neste case, a título acadêmico.

Vivemos em um momento que muitos querem se esquivar de suas responsabilidades na base do “eu não tinha como saber”. Você quer auferir lucro com alguma coisa? Vá se certificar onde você está colocando seu nome. Ou, se o seu lucro, o dinheiro do seu bolso, está vindo de trabalho infantil, trabalho escravo, sonegação fiscal, qualquer erro ou ilegalidade que seja, a responsabilidade é sua, sim. Não é possível ficar só com a parte boa. Ah, mas eu não tenho como saber…

Tem. E David Beckham também tinha. A H&M tem um histórico, que eu encontrei em uma rápida pesquisa no google (imagine o que uma equipe de advogados, contadores e relações públicas poderia encontrar). Fato, a empresa recentemente se comprometeu em tornar a fabricação de roupas de maneira ética uma prioridade (precisa ser prioridade, ou deveria ser inerente?). Mas pelo jeito, esse compromisso não foi levado tão a sério, os homens continuam a querer se vestir como Beckham, o lucro da empresa continua a crescer, e o dinheirinho suado (pelo trabalhador) cai no bolso do jogador. Ele continua a fazer fotos para ONU nas campanhas contra o trabalho infantil, e a gente finge que nada viu (adoro quando rima!).

Consegui não discutir no facebook. Mas não consegui não discutir no whatsapp. Em um grupo de amigos queridos, a treta já era outra (facções na indústria têxtil, ui), mas o tema era o mesmo. Responsabilidade. Tudo é uma questão de responsabilidade. Soltei um “eu acho que todo mundo tem que saber a procedência do que está vendendo”. Caos geral na nação.

Saber como? Não dá. É impossível. Dá muito trabalho. Não tenho o conhecimento técnico. Não tenho tempo. Como o pequeno empresário teria condições?

Desculpas. A gente dá desculpa quando não quer fazer algo. A gente dá desculpa pra não fazer algo quando esse algo não é prioridade.

“É que se eu for comprar só diretamente do produtor, eu perco um serviço fundamental na supply chain do comércio: o atacadista”, disse um amigo que eu admiro demais, altamente inteligente, e que eu preciso elogiar bastante aqui pra ele não se zangar porque virou personagem da minha crônica. Foi mal, isaac!

Verdade. Não precisa comprar diretamente do produtor. Existem muitas opções de atacadistas, umas mais caras, outras mais baratas. Existem ZILHÕES de fornecedores. Todo e qualquer empresário pesquisa a idoneidade de um fornecedor, pra saber se ele vai cumprir a obrigação e entregar o contratado. Quando fecham grandes vendas, todo e qualquer gestor checa a idoneidade do contratante, pra saber se ele vai pagar. Quando o interesse é do empresário, ele dá um jeito e faz. Mas checar a idoneidade do fornecedor/do parceiro/da empresa terceirizada, quanto aos trabalhadores que estão no chão de fábrica gastando a força e energia para produzir o que depois vai rechear a sua conta, não dá, é impossível, dá muito trabalho, não tenho o conhecimento técnico, não tenho tempo, como o pequeno empresário teria condições?

Responsabilizar-se pela procedência ética dos seus produtos não é prioridade da maioria dos empresários. É mais fácil, mais barato e mais prático fechar os olhos. Depois, é só dizer que não tinha como saber… Em juridiquês, teoria da cegueira deliberada (willful blindness doctrine, David).

Ter responsabilidade social é trabalhoso. Mais fácil não ter. Mais lucrativo, também. Porém, se você quiser, dá. Não é à toa que existem várias empresas e pequenos empresários fazendo tudo certinho. Dá trabalho, e muito. Diminui o lucro, e muito. Quem quer isso?

A responsabilidade é do governo, que não incentiva, não é minha não.

Falta incentivo da sociedade também. Consumidor não se responsabiliza. Se for mais barato, geral corre pra comprar. Ainda mais em crise. Poucos se perguntam: “por que é tão barato”?

[pausa para dar um exemplo fora do contexto porém muito útil → Faz sentido energia solar ser tão cara? É porque o governo não incentiva. Faz sentido o mundo estar se acabando por causa do petróleo? Não. Mas você vai deixar o seu carro na garagem? Não vai.]

Retomando, tudo é uma questão de responsabilidade. E a responsabilidade, caro leitor, é sua também. Seja como empresário, seja como consumidor. Quando todos assumirmos nossas responsabilidades, o mundo muda.

Na esfera trabalhista, qual é o instrumento mais efetivo para resolver os direitos dos trabalhadores que são explorados? Multa, fiscalização? Não. É a greve. Direito fundamental constitucional. Na hora que todo mundo senta no chão e se recusa a permanecer no erro, aí que a coisa muda. Ai que o empregador desonesto pensa: “opa, é melhor eu pagar o salário…”.

Vamos levar esse raciocínio para a esfera empresarial. Empresas que degradam a condição humana sobreviveriam se não conseguissem repassar seus produtos para outras empresas revenderem?

Vamos levar esse raciocínio para a esfera do consumidor. Empresas que degradam a condição humana sobreviveriam se não conseguissem vender suas brusinhas no shopping?

A gente finge que não viu MESMO. Vamos até a loja, compramos jeans e camisetas desta coleção tão moderna, despojada, e barata. Chegamos felizes em casa porque, nossa, foi tão barato.

Hora de dormir. Leia-se, deitar no sofá e ver netflix. Deixo aqui uma sugestão:

E a vida segue, até a próxima polêmica.