a volta

Prometi escrever um texto por dia. não deu certo.

O fato de eu não ter nenhum vício é a ilustração de como eu não consigo manter hábitos diários. Nem chocolate, cigarro, bebida, café. Nada fica, gosto de mudanças.

Fiquei um pouco mais tranquila quando li em uma entrevista que a Toni Morrison não consegue escrever todo dia, e que ela tem a necessidade de sair de casa para escrever. Não tem regra, cada um faz o que serve para sí.

Eu tirei essa foto na Letônia, em homenagem a ela, a Toni Morrison.

Imagino ela sentada, olhando para seu pequeno caderno amarelo, passando os dedos pelo lápis e escrevendo coisas inesqueciveis.

Algumas pessoas pensam: ‘Oh, ela é tão virtuosa, levanta-se tão cedo’”, diz Morrison, soltando uma risada de fumante. “Não tem nada a ver com isso. Levanto-me porque: a) o sol se levantou, e b) fico inteligente de manhã. Não consigo fazer nada à noite.”

Ela está na imagem, essa luz que brilha no estofado é ela mesma. É como a vejo.

Preciso lembrar sobre esse brilho para conseguir manter minha vida, da maneira que escolhi. Minha casa, meu jardim que nem mesmo existe, mas que eu já tenho tantas vontades para ele. Por que toda essa estrutura existe para que eu possa fazer uma coisa: ouvir o vazio e escrever sobre ele.

Desde sempre tenho medo desse vazio, dessa possibilidade da vida ser sozinha, sem nenhuma luz que seja capaz de preencher. Vi filmes e mais filmes tentando preencher esse lugar.

Continuo tendo medo dele, mas agora, por que resolvi morar numa casa que chamo de minha, que depende de mim para existir, preciso que esse vazio não signifique mais medo.

Essa luz que rebrilha num trem me mantém de pé.

Cada um faz o que serve para sí, e isso para que um dia essas coisas que fizemos sirvam para que outro diga: Vou arcar com a minha vida! Vou escrever um livro! Posso ser mulher, podem dizer que não vou conseguir, que arte não dá dinheiro, que o mundo está perdido. podem me perguntar se sou artista, e achar que eu nem sei o que é isso! Hoje eu vou escrever um livro por que estou disposta a dar conta de minha vida e ouvir o vazio.

Quem sabe, quando encostar o lápis na ponta da folha minha angústia se dissolve, posso então conversar com outras angústias?

Espero que sim. E que carregue esse brilho dentro de mim, um passarinho sem gaiola, que voe nas noites de sonho pelo mundo todo.

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