sobre despertar a criança em nós

Eu não gosto de rótulos. Tenho pavor de ter que me colocar dentro de uma caixinha. Além de sufocante, isso é tão superficial. Fora o fato de ser muito chato ter que se explicar, se colocar, se definir, e se afirmar para o outro sempre só para isso ser socialmente aceito.
Mas nem sempre foi assim.
Por muitos anos eu era essa que achava que sim, precisaria me encaixar em um desses padrões, em uma dessas caixas. Até que comecei a me sentir muito incomodada com isso, talvez seja minha teimosia virginiana, não sei, mas juro que já tentei me encaixar em muitas caixas ao longo desses meus vinte e sete anos.
Até que depois de muito tentar, comecei mesmo a me incomodar com esse viver de forma padronizada, realizando sonhos alheios, lendo um roteiro pronto, ou como se estivesse presa em um episódio de WestWorld.
“Vá para a escola!”
“Vá para a faculdade!”
“Vá ser alguém na vida!”
“Case com alguém!”
“Tenha um bom emprego!”
“Tenha um corpo de revista!”
“Se comporte!”
“Tenha uma casa, um carro, filhos…”
Onde fica a nossa natureza dentro de todo esse protócolo de “faça isso-seja aquilo”? Onde ficam as minhas escolhas? Quem me perguntou se é isso mesmo que eu quero? Aonde tá escrito que eu posso chorar, gargalhar, sentir tesão, ser livre, me amar, me divertir, sem precisar cumprir as expectativas dos meus pais, amigos, namorados, da mídia?
Onde entra o “eu” na história?
Que tal, ao invés de todos esses rótulos impostos, apenas SERMOS? Seja quem você quiser ser, e isso pode significar ser muito mais do que se encaixar em um padrão. Hoje eu não me considero nem bissexual mais por exemplo, eu apenas me atraío por pessoas e suas energias, e isso indifere de gêneros.
Eu não me considero vegana também, eu apenas tenho me alimentado de forma mais natural e feito escolhas mais sustentaveis, pois em uma das minhas descobertas de mim, e aja meditação e terapia para isso, me veio o insight de que sim: somos todos natureza.
E sim, todos nós estamos destruindo essa natureza.
Destruindo inclusive a natureza do nosso ser, a nossa própria natureza interna, aquela conexão que deveriamos ter com nosso interior e com o universo, sabe? Não tá rolando.
Não tá rolando pois somos condicionados a viver em uma sociedade cheia desses padrões assim que nascemos. Ou melhor, antes mesmo de nascermos. Eu me chamo Camilla, mas quem escolheu esse nome? Não fui eu, obviamente. Por mim eu me chamaria “Princess Consuela Banana Hammock” (entendedores entenderão). Se nossos pais não tivessem nos registrado em uma folha de papel assim que nascemos, seriamos vistos hoje como indigentes, já pararam para pensar nisso?
Sim, indigentes. Palavra forte até quando lemos em voz alta. Indigente. Sendo que eu sou gente. Sou gente com uma alma gigantesca, um sistema nervoso super completo, um coração, tudo funcionando direitinho aqui dentro, inclusive. Sou praticamente um universo. Mas não, ter um nome é mais importante, pois dessa forma nossos pais tem o controle de posse sobre nós desde já. E começa aí o círculo de precisar da aprovação do outro.
Estamos entrando em uma era onde cada vez mais os rótulos vem ganhando força, causando segregação, indiferenças, desunião e esquecemos do principal, esquecemos que podemos ser mil coisas dentro de um corpo só, nossa alma é infinita, e se limitar em viver dentro dessas caixas é bloquear todo o nosso potencial.
Sabe aquela pureza e criatividade de criança? Então. Todos nós temos ela, escondida dentro de algum lugar aqui dentro, embaixo de mil camadas, de mil caixas, algumas até mesmo com teias de aranhas de tão irrelevantes, mas estão lá, ocupando um espaço enorme e nos impedindo de enxergar nossa real natureza. Todos nós nascemos puros, plenos, criativos, mas ao longo da nossa vida, fomos “ensinados” que precisamos podar isso tudo.
Podar nossos instintos, intuições, sentimentos, vontades.
Hoje, com meus 27 anos, eu não me considero designer, youtuber, blogueira, escritora, filmmaker, ou [insira aqui uma posição de status que alimente o seu ego], eu apenas tenho utilizado maneiras de acessar a minha natureza e me expressar criando, seja lá como for, pode ser que um dia uma criação minha seja um monólogo no chuveiro, no outro um desenho no espelho embaçado de vapor.
Eu e você que usamos as palavras, o corpo, a música, o cinema, a fotografia, ou oque quer que seja, para expressar aquilo que queremos, nós somos artistas, isso sim. Artistas. E estamos nos despertando cada vez mais, desconstruindo a era dos padrões para construir uma nova.
Pois criar é uma arte que muitos passam a vida deixando adormecida dentro de cada um, para seguir o caminho mais fácil, o caminho que alguém disse que é o melhor, o mais seguro, o que paga as contas ao final do mês. E daí chegam lá no final da faculdade, do mestrado, da vida toda, e se perguntam: “Tá, e agora?”.

Quando conseguimos resgatar essa criança adormecida, é aí que a mágica acontece e passamos a jogar o que tá dentro do coração para o mundo, passamos a nos descobrir como nunca antes.
Se arrisque, se sinta, se liberte, repita o mantra: eu sou artista. Até mesmo construir uma “carreira de sucesso” hoje é estar dentro de uma dessas caixas, dos rótulos, dos padrões, da Matrix (ou como você queira chamar) então ao invés disso, faz o seguinte: encontre seu propósito.
Tenha em mente que encontrar o nosso propósito é tipo encontrar o Wally, mas só de querer encontrá-lo já é meio caminho andado.

Esse processo não é fácil mesmo, mas se você chegou até essa parte do texto é porque também vem se questionando se a vida é realmente “só isso”. A caçada por mais, por ter, por bens, por relações onde você impõe que o outro seja o responsável por te fazer feliz, likes, curtidas, status, dinheiro, carreiras de sucesso construíndo sonhos dos outros. Pare, apenas pare. Tudo o que você precisa tá aí dentro de si.
Quando descobrimos que a felicidade se baseia em SER e não TER, parece que um portal se abre. E é o portal para dentro de nós. Então vem, arregace as mangas, coloque uma roupa confortável, põe a sua playlist favorita para tocar e comece a faxina porque realmente arrumar uma casa bagunçada cheia de caixas, poeira, rótulos e sentimentos esquecidos, não é fácil, é exaustivo.
Mas posso te garantir que vai valer a pena. Só limpando toda essa zona, mais bagunçada do que um episódio de “acumuladores”, é que conseguimos espaço para resgatar nossa natureza, brincar, criar, preencher os espaços com muita cor, amor, positividade, despertar novamente aquela essência de criança que está escondida por aqui e aí sim passar a viver uma vida vibrante, viver a nossa vida, sermos protagonistas da nossa história.
Jogue fora todo o peso dessas caixas empoeiradas que só te fazem mal e a partir de agora preencha sua vida com o novo, com o leve, com sua natureza mais pura, e tudo aquilo que cruzar o seu caminho te puxando para longe do seu propósito, apenas destarque. E ah, o que você quiser guardar a partir de agora, já sabe: joga na nuvem.
Camilla Pires, seguindo no processo de me curar de mim mesma.
