De A-V

Ilustração: Ziraldo

Quando era menorzinha, escrevi assim:

Vejo

Sentada no jardim.
Vendo, com verdadeiros olhos
o tempo passar
Vendo também
o vento voar
E junto com o vento
Voa a vida, voa o pensamento

E eu vejo tudo.

Será que isso é alegria?
Será que é tristeza?
Que sentimento será?
Isso, não consigo enxergar

Quando eu era “maiorzona”, escrevi assim:

De A-V

Tem a ver com olhos, narizes, bocas, mãos
Com tua, tão nossa, visão
Tem a ver com cheiros, gostos, gozos, suor
Tem a ver com sons

Tens, a ver, bem à tua frente
a vida, exuberante
e miserável dessa gente

Vê, e sente.
Todo o sentido
Tudo
a ver

Mas nem sempre.
Na maioria das vezes, não. 
É nada, é só confusão.

E a poesia que é, se-não? 
Com o que tem a ver, por quê? 
É arte? Transformação?

É o que pode
E o que não pode ser.
Talvez, por isso mesmo tem tanto a ver
Por isso nós mesmos temos que ver

É mesmo isso,
Poesia 
tem que haver

Ilustração: Anna manzanna

Acho que não é aleatório as duas poesias juntas aqui. O ‘ver’ da criança reflexiva tinha um pouco do meu alfabeto A-V adulto incompleto.


Originally published at mygrowingarden.blogspot.com on September 30, 2014.