Gilmore Girls e Arquétipos Femininos

Já imaginou todo o cenário de Stars Hollow parecido com as pólis da Grécia Antiga, e os personagens do show sendo trazidos diretamente do panteão grego? Não? Pois bem, apesar de já estarmos a mais de 21 séculos depois de Cristo, ainda temos como traçar semelhanças entre as modernas Gilmores da série de TV americana e o comportamento das Deusas de uma era politeísta. E não apenas com elas, como com todas nós, mulheres, que temos intrínsecas várias facetas femininas. Para quem duvida, já adianto que isso tudo tem uma explicação psicológica: a noção dos arquétipos e do nosso inconsciente coletivo, que explico depois. Mas vamos primeiro às odisseias das personagens principais do seriado Gilmore Girls:

A brilhante Atena universitária

Conhecida como Minerva pelos Romanos, Atena é a Deusa guerreira da sabedoria. Não é à toa que se tornou símbolo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com seu capacete virado pra trás. A história dela resumidamente é a seguinte: seu pai, Zeus, queria prevenir o nascimento de um filho que tomaria seu trono — boato que ouviu do Oráculo. O espertão engoliu, assim, sua primeira esposa Métis ao engravidá-la. Era a dominação crua da mulher pelo patriarca, impedindo em primeira instância o poder criativo feminino. Porém, após uns meses, ele sente uma terrível dor de cabeça, de onde salta sua filha Atena com uma lança: ela havia sobrevivido esse tempo todo dentro da mãe, dentro do pai. Podemos viajar por horas nessas metáforas: uma questão bem visível é que esta deusa se tornou símbolo da mulher que se apropria dos poderes normalmente atribuídos ao gênero masculino, como a racionalidade, estratégias de guerra, segurança e praticidade, sendo gerada logo da cabeça do pai. Já podemos visualizar aí alguma semelhança com uma das garotas Gilmore?

Rory é pintada como nerd e pragmática desde o início da série, quando inspira sua mãe a buscar a melhor e mais tradicional escola da região para a filha, abrindo mão até mesmo do orgulho em pedir dinheiro aos pais ricos. Ao longo dos episódios, vamos percebendo então a personalidade da adolescente tímida, focada e que sempre faz listas ou procura as melhores sombras de árvores para ler seus livros.

Em seus comportamentos predomina os aspectos de Atena, que é considerada também uma deusa virgem — o que, para os gregos, significava apenas que a deusa era solteira, e não virgem no sexo — suas prioridades não levariam em conta nem de longe um casamento. Assim, a estudante que almejava Harvard era capaz de se apaixonar e namorar — ao mesmo tempo, não tornava disso um entrave às suas aspirações profissionais (diferente do que vemos em muitas produções adolescentes).

Claro que Rory, como todo ser humano, também é sensível na trama e tem seus momentos mais passionais. Importante dizer: uma mulher sempre carrega um pouco de um mito em cada momento da vida, não se limitando a um arquétipo, como o de uma deusa, só. Encontrar o mito predominante é somente um exercício pra aprender mais sobre as histórias de vida, e esse mito predominante na construção das personagens, por vezes limitado ao estereótipo comediante, nos dão ferramentas interessantes de análise até de nós mesmas.

Na mitologia, Atena acaba se aproximando muito do pai Zeus e se tornando sua filha predileta, já que compartilha de seus valores e defende seu poder masculino. É engraçado como, num paralelo com GG, podemos perceber Rory se aproximando dos avós (principalmente o avô, que se assemelha muito com esse bom e impiedoso Zeus) e de seus valores tradicionais, como Yale, até mesmo se interessando sexualmente, na faculdade, por homens poderosos economicamente, apesar de sua mãe em nada ter contribuído para essa admiração.

Lutando atualmente com a liberdade de Ártemis

Enquanto isso, Lorelai Gilmore passou a vida lutando para se livrar das obrigações e domínio de sua mãe socialite Emily, avó de Rory, e do conservadorismo de sua linhagem. Com 16 anos, foge de casa com Rory recém-nascida e empreita uma jornada de mãe solteira, de vida simples numa cidade pequena, com bons amigos e parceiros. Torna-se gerente da pousada em que inicia como camareira, provando que é capaz de se crescer profissionalmente de maneira independente. Deixa os homens sempre apaixonados mas, ao intuir que aquela relação não dá a ela a satisfação e liberdade que quer, se afasta deles. Ela é o maior símbolo do feminismo na série, não é mesmo?

Pois muito antes desse movimento tomar projeção no mundo com o nome que conhecemos, uma deusa grega já personificava a feminista: Ártemis.

Ela é uma deusa lunar e também virgem (novamente no sentido de solteirona), acompanhada de cães ou leões, arco e flecha (presente do pai: ela também é filha de Zeus) e uma corte de ninfas. Vive longe, nos bosques e florestas, sendo a deusa da caça, da vida selvagem. Sua mãe, Leto, amante de Zeus, obteve ajuda da filha recém-nascida na hora do parto do seu irmão-gêmeo Apolo. Leto estava escondida numa ilha, contra a fúria da esposa traída na ocasião. Por isso, Ártemis , ou Diana para os romanos, também é tida como a deusa do parto e da natureza.

Podemos dizer que, hoje em dia, muitas mulheres feministas buscam simbolicamente essas trilhas de independência, próprias do nosso inconsciente selvagem; não importa se vivem ou não concretamente na floresta. Mesmo nos meios urbanos alguns círculos de mulheres se reúnem com intenção de preservação dos ciclos saudáveis femininos, da semeadura e da colheita, da morte e do nascimento, das fases da lua. Entretanto, esta parcela do movimento ainda não é inclusiva de mulheres de classes mais baixas economicamente.

Entrando nesses simbolismos, lembro das cenas em que Lorelai mostra seu fascínio pela neve. É uma das poucas marcações da passagem das estações nos episódios, além do recente revival de 4 episódios que remetem às estações do ano, produzido com a Netflix. A relação com a neve demonstra, num cenário bem típico americano, que talvez Lorelai seja a personagem mais sensível à natureza cíclica. Na fase em que a dona da nova pousada Dragonfly Inn está, por outro lado, com a vida frenética e pega pesado no trabalho, com muita demanda de planejamento e organização (arquétipo de Atena), é justamente quando por um dia ela chega a odiar sua “amiga” neve. Podemos pensar muitas coisas a partir dessa narrativa: em como mesmo vivendo no mundo urbano, patriarcal e capitalista, com muita cafeína e comidas industrializadas, podemos em certos aspectos nos reaproximar ou nos afastar do arquétipo livre de Ártemis.

Hera, Socialite de Hartford

De outra posição, temos a filha dos deuses titãs Cronos e Reia, Hera, que é a figura do conservadorismo, da herança de gerações antigas. Seu nome significa “senhora”, e, embora a conheçamos hoje em dia mais como uma esposa traída e ciumenta de Zeus, estudos apurados indicam que ela já era cultuada muito antes dele, em Olimpia. Hera era até associada à figura sagrada da vaca e dizia-se que seu leite teria dado origem à Via-Láctea.

Em “Ilíada”, de Homero, é quando se começa a aparecer mitologicamente detalhes sobre o matrimônio de Hera com Zeus, sendo a deusa satirizada por ter ciúmes de um marido infiel que teve praticamente todos os filhos fora do casamento (o que por si só já dá um bom motivo pra sua personalidade rígida, ferida de amargura e ira, convenhamos). Hera realiza seu poder essencial como senhora “braço direito” do marido, o qual não dá um passo em suas estratégias políticas sem consultá-la.

Quem se parece com ela não é nada mais nada menos que Emily, com sua língua ferina e espírito dominador, principalmente na vida de Lorelai e Rory. Mulher aparentemente submissa ao marido mas que também usufrui dos privilégios da riqueza, demonstra ter muita habilidade pra governar o micropoder de sua casa e família. Não abre mão dos rituais luxuosos dessa alta sociedade e é capaz de manipular até o limite sua filha e neta para seguirem o que considera “a coisa certa” na vida.

Também é peça fundamental no sucesso de seu marido Richard, assim como Hera perpetuava seu poder com a parceria e influência nas decisões de um deus de alta posição. A relação do casal do Olimpo era mais conflituosa que a da série, com inúmeras brigas e reconciliação. Mas podemos perceber sutilmente os indícios de uma relação da mesma natureza, principalmente quando Emily descobre os almoços de Richard com uma ex-namorada, ou na separação dos dois seguida de “renovação de votos”. Nos mitos gregos, a reconciliação de Zeus e Hera significava que a terra voltaria a florescer, justificando moralmente o não desvio da tradição do casamento.

O arquétipo que Emily representa ainda é muito presente no mundo atual e é tudo aquilo de que as Lorelais da vida, como na série, tentam escapar, mesmo admitindo que às vezes para avançar é preciso voltar da selva livre e dialogar com as imperatrizes da tradição, que, afinal de contas, também são mulheres. Além disso, vale a pena ver no revival a mudança da personagem a partir da [SPOILER] morte do marido, até mesmo deixando de demitir e tratar mal as empregadas.

Apesar de tudo, há aspectos que podem ser considerados qualidades na personalidade de Hera, como a liderança, fidelidade e companheirismo. E a série nos mostra muito bem essas questões ao não colocar uma personagem como essa num papel de vilã detestável, mas sim de mãe, avó, fruto de uma linhagem que a faz sofrer e se beneficiar ao mesmo tempo.


Achou interessante? Os conceitos citados aqui de “arquétipo” e “inconsciente coletivo” vêm da psicologia de Jung (analista famoso por, a partir de 1912, romper com as teorias de Freud). Os arquétipos, em termos simples, seriam certos padrões emocionais, presentes em nossos pensamentos, instintos e comportamento, que fazem parte da psiquê de qualquer pessoa, em qualquer região, mesmo sem contato uma com a outra. Jung chegou a essa teoria afirmando do “inconsciente coletivo” ao viajar pelo mundo estudando várias culturas que nunca entraram em contato entre si, porém, que desenvolveram, quase ao mesmo tempo, certos comportamentos culturais: crenças, imagens, histórias ou contos de fada. Assim, temos os arquétipos como o da criança, da avó, e alguns psicólogos também os estenderam às Deusas gregas, para explicar o inconsciente feminino (não só em mulheres, pois todos teriam lados “ying e yang”, mas principalmente). É a partir dessa premissa de universalidade que as histórias e narrativas de vida vão fazendo sentido e ganhando fãs, como a queridinha série Gilmore Girls, talvez sem nem terem sido pensadas por seus roteiristas nesses termos. Se quiser ler mais sobre os arquétipos, o blog Café com Jung é uma boa fonte, da analista Hellen Mourão.