Histórias curam

“Ernesto” (Companhia das Letrinhas), ilustrado por José Carlos Lollo

Hoje sonhei com um querido amigo, que, irônico e gay, olhava o meu corpo (que estava diferente) e dizia: “Nossa, esse corpo de mulher, farto… quantas histórias, quantas curvas… sai daqui!”

É, é apropriado que a Mulher Selvagem/ Mulher-borboleta seja velha e corpulenta, pois ela traz o mundo dos trovões num seio, e o mundo subterrâneo no outro. Suas costas são a curva do planeta Terra com todos os seus frutos, alimentos e animais. Na sua nuca, ela traz o sol nascente e poente. Sua coxa esquerda guarda todos os pinheiros; sua coxa direita, todas as lobas do mundo. Em seu ventre estão todos os bebês que um dia ainda irão nascer.
 Uma vez sonhei que estava contando histórias e sentia alguém dando tapinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha que segurava meus tornozelos e sorria para mim. “Não, não” disse-lhe eu. “Venha subir nos meus ombros, já que a senhora é velha e eu sou nova.” “Nada disso” insistiu ela. “É assim que deve ser”. — Trechos de Mulheres que correm com os lobos


Originally published at mygrowingarden.blogspot.com on August 6, 2015.