Maya e o mar

recriação de A Pequena Polegar

Era uma vez uma indiazinha temiminó, filha de Inaiê. Foi criada numa cabana perto do pântano da Ilha de Paranapuã, junto a outras mães e avós que resistiam a se aliar à guerra dos homens, responsáveis pela destruição e traição. A menina era muito pequenina em comparação às suas ancestrais e às suas irmãs mais velhas, árvores.

Um dia, enquanto dormia, um velho corpulento e feio que estava a caçar caranguejos na Praia do Dendê se admirou com a beleza da menina e resolveu roubá-la da cabana, introduzindo seu braço pela ventana a puxando suavemente, pois era delicada como uma pétala de flor e podia escorregar-lhe entre os dedos. Quando a indiazinha acordou, estava em um barco e deparou-se com senhor horripilante a chamá-la de “minha pequena polegar”. Enojada, pulou naquelas águas paradas do mangue, mesmo sem ainda saber nadar.

Seu corpo foi afundando e passando por várias paisagens nunca antes imaginadas pela pequena. Era uma vastidão de tons de azul, violeta, verde, e colônias de animais marinhos. Encantada, a pequena polegar perdeu o medo do velho e do mar, apenas sorriu com a dança dos peixes. Viveu nos corais da baía de Iguaá-Mbara (ou Guanabara) se alimentando de algas, até passar uma terrível corrente de água gelada que sumiu com muitos peixes e cores.

O frio era congelante, a fome era de morrer. Mas quem a salvou, a convidando para abrigar-se em sua toca, foi a serpente do mar, em troca de canções e histórias de ninar. Assim se passaram as estações e o frio, com Polegarzinha a entoar sua voz para a querida anfitriã Dona Cobra.

Já era verão e os corais voltavam a encher-se de vida, a pequena índia já começava a sentir saudades de casa. Onde mais nossa heroína iria parar, agora que perdida nesse fundo do mar? A serpente já tinha planos para a jovem: queria que casasse com seu vizinho molusco Quíton, que não tinha olhos de enxergar e só sabia ficar parasitando pedra.

A menina tentava pensar numa escapatória para este destino cruel, quando esbarrou num belo Bagre-Bandeira enterrado na areia. Todos acreditavam tratar-se de um peixe morto, mas a pequena polegar cuidou de suas feridas e ofereceu-lhe comida. O novo amigo, aos poucos se recuperando, ouviu todo o dilema da moça e prometeu ajudar. Quando chegou a época de desova e vésperas do casamento arranjado de Polegarzinha com Quíton, passou um cardume de Bagre-Bandeiras pelos corais do Mangue e a índia se enfiou entre suas barbatanas amigas, em busca de novas águas.

Foi difícil subir a correnteza e cruzar a pororoca, mas polegarzinha e o cardume conseguiram chegar ao rio Carioca, onde as águas eram doces, com gosto de amor. Como a superfície estava mais próxima, pequena polegar conseguiu voltar à terra e respirar. Logo avistou outro índio, tão pequeno quanto ela, que pertencia a uma aldeia ribeirinha da região, os Tamoios. Ao se conhecerem, descobriram que houve um casamento desfeito há gerações atrás entre seus tataravós, por causa da guerra. Porém, a partir desse dia, a indiazinha passou a interligar a ilha de sua mãe até o rio de seu amor, e ficou conhecida como Maya, aquela que vive entre a terra e a água.

Criança tão pequenina

Filha da ilha

Polegarzinha

Sequestrada e foragida

No fundo do mangue

Fez amigos

veio o sangue

É sábia a espera

Quíton não enxerga

Nada

Voando, longe

É salva em novo horizonte

Polegar é índia, Maya

Já entende dos ciclos e estações

Poque volta à sua terra origem

Como ao rio retorna um salmão