Mantra

Tomar consciência de todas as contradições das coisas, e que não tem como resolvê-las nesse mundo, é perceber as correntes que nos amarram ao dar um passo — concluindo a premissa de Rosa Luxemburgo. Penso nisso quando anseio pela cura, quando parece que sempre vamos viver doentes, em maior ou menor escala, em algum contexto, e não há saída. Queria resolver isso com um mantra. Traduzir toda a caminhada do herói, tudo o que aprendemos e desenvolvemos psicologicamente, em algo rimado e decorado, que sempre possa ser cantado a fim de lembrar que existe esperança.

Vem um impulso tão forte pelo alívio. Pelo sono. Pelo descanso eterno. Quero esquecer a corrente. Sei: todo o sonho que eu sonhasse assim, dormindo acorrentada, seria apenas ilusório. Sei: as temporalidades às quais nos apegamos pra ter a sensação de fuga, de distância, são ilusórias. Então, a contradição maior: a corrente está aos nossos pés, invisível presente, implacável aterrada, não dá pra se livrar num simples movimento, mas ao entrar em contato com isso e encará-la, e fazer de tudo pra soltá-la, também não tem como se sentir bem. Muito provavelmente estaremos convivendo com o adoecimento, quanto mais esforço fizermos pra libertação, e quanto menos úteis eles forem.

Digo pra mim mesma —

PÁRA, PARA COM ESSA MERDA. De querer evoluir. De olhar as “superações” como algo extremamente positivo e linear, e as repetições como um atraso, um retrocesso, um labirinto sem saída. Vamos lá. Não é nada assim, necessariamente. A gente vive rodando, espiral de ciclos…

Tem coisas que mudam rápido, nos gerando excitação, alívio momentâneo, ansiedade, tensão; de qualquer forma, o ciclo delas é mais rápido. E outras coisas são mais lentas, mais difíceis de mover qualquer lasca… como é o caso da corrente, metáfora da sociedade. Mas que mudam, mudam. E surgem mil outros destinos e sentimentos a partir disso. Uns se privilegiam, outros tantos são oprimidos, ou perdem seus privilégios nessas mudanças históricas. Esses movimentos coletivos são sentidos por gerações e gerações… não é algo pontual, nem é algo que vai ser “resolvido”, necessariamente, tampouco se trata de o mundo ser salvo. A gente pode fazer o que está ao nosso alcance, no nosso tempo. E é uma merda ficar olhando a história como uma linha do tempo. Essa idiotice de racionalidade cartesiana. É isso que gera até as angústias mais individuais, como a soma de números vazios que se comemora ao fazer aniversário.

Que abolam-se as linhas. O mundo não é feito de retas. E isso é uma verdade científica.

Agora, a proposta deste devaneio de traduzir isso num mantra…

Pode ser:

Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar

… do vidro que se quebra, do amor pouco que se acaba. É uma sabedoria popular tão genialmente cantada como coisa despretensiosa, alegre, sutil irônica. Pra nos lembrar tão natural e inconscientemente que não precisamos apostar corrida pra chegar em lugar nenhum: a Terra, as partículas, tudo são esferas.




Texto adaptado de uma epifania em diário de 07.05.2015