O Homem da Mala

Havia uma cidadezinha onde tudo acontecia como previsto. No final do ano, a paróquia tocava os sinos de Belém. As crianças, de férias, corriam e se aventuravam. Depois de alguns meses, viria o carnaval e fantasias com purpurinas e rituais, seguida da volta às aulas. Até que as folhas das árvores começassem a encher as ruas, lembrando da mudança das estações. O resto do mundo, ocupado com suas inovações e guerras, poderia nunca mais ouvir falar de lá, se não fosse por um ocorrido que deixou fama.

Chegou, um dia, certo visitante com uma mala bem grande. Ele tinha um corpo magro e esmirrado, adornado com sapatos bem lustrados, um chapéu e a mala. Não dava pra saber muito bem qual era sua idade, já que os cabelos e as barbas cobriam quase todo o rosto e tinham uma cor meio indefinida. Desse jeito, não se sabia se ele tinha rugas ou uma pele oleosa e jovial, se os cabelos tinham essa cor por natureza, ou se estavam sujos. Vai ver, eram só de um branco encardido. Apenas seus olhos eram descobertos, também de duvidosa cor: de passarinho da serra, ou do rato desnorteado que um dia, quando vi, meu gato já tinha devorado. Isso é o que as crianças deduziam, se divertindo, inspiradas nos bichos da região. Mas o sujeito logo despertou a curiosidade de todos os moradores. Não só pelo seu perfil físico, mas por ter caminhado direto à praça principal e lá ficado, até anoitecer e alvorecer.

Toninho, o dono da única pensão da cidade, foi o que mais se indignou com tal atitude. Ele deu, todo solícito, as boas-vindas ao cidadão, indicando seu estabelecimento que se encontrava a menos de 500 metros dali. No que recebeu a seguinte resposta:

- Eu muito lhe agradeço, mas não estou aqui por viagem.

Ora, se ele não era um homem de negócios, ou um itinerante aventureiro, o que estava fazendo? Será que não tinha condições de pagar a pernoite? Pois com aquela mala e aquela graxa no sapato, parecia até nobre. Não era possível estar de tanta pão-durice e não querer abrigar-se numa modesta pensão. Que estava praticamente vazia! Já havia cinco meses que os quartos não recebiam hóspede algum. Toninho ficou espiando a pracinha à espera de uma mudança de atitude daquele estranho. O fato é que, ao final do dia, o homem audacioso simplesmente escolheu um pé de jabuticaba, recostou nele a mala, deitou-se e dormiu em sono profundo.

No dia seguinte, muito gentilmente ele fez amizade com as flores, andorinhas e cachorros da praça. Foi à padaria e dividiu com eles seu pão e sua água mineral comprados com as últimas moedas do bolso. Aos poucos, foi fazendo amizade também com as crianças e transeuntes, contando histórias e dando conselhos. O delegado até pensou por um momento em prender o homem por estar mendigando, já que aquela cidade nunca teve em sua história um morador de rua, que dirá com uma mala gigante. Porém, sua moral foi logo posta em questão quando o homem o defendeu de uma bicicleta adoidada de um menino que tinha perdido o freio. Ele se jogou à frente do automóvel que vinha em direção ao delegado e amorteceu a queda do pequeno motociclista. Grato pela salvação heroica das duas vidas, a autoridade o convidou para um farto almoço, e, a partir de então, foi conquistada mais uma amizade pelo homem da mala.

Em certo momento, todos já estavam acostumados com a sua presença na praça e ruas da cidade, o que trazia até segurança para algumas senhoras. Ele era o perfeito vigia que impedia maus elementos (dizem que até fantasmas!) de se aproximarem do recanto o qual o resto do mundo já nem lembrava mais. Mas uma coisa começou a provocar medos, piadas, apostas e até profecias: aquela mala. O homem nunca a abria na frente de ninguém. Quando chegavam perto, ele logo tinha o dom de distrair o sujeito com conversas até que se esquecesse da existência dela. Ou mesmo algo muito raro acontecia que desviava a atenção da pessoa do objetivo de abrir a mala: a neve do inverno caía a primeira vez, ou a Lua cheia aparecia brilhante de trás de uma nuvem e os cachorros uivavam. Quando perguntavam o que tinha dentro, ele respondia vagamente:

- Ah, são meus suspiros…

Alguns interpretavam que o homem se referia a fotos ou outros objetos de lembrança de uma amada que Deus sabe como ou porquê estaria longe dele. As crianças logo se excitavam e brigavam para ver quem ficaria com os doces da mala. Deviam ser suspiros muito gostosos que não murchavam nunca! E, assim, foram se acostumando também com aquele objeto de viajante dum homenzinho que não se assumia viajante, e que já era pro resto do povo considerado um novo habitante.

Um dia, o homem subitamente começou a passar mal, seus cabelos pareciam até ter tomado outro tom, mais nítido, esverdeado. Ele tinha dificuldades de respirar. A vizinhança, apavorada, logo começou a acudi-lo e, por fim, resolveram levá-lo ao hospital, esquecendo a mala ali num canto, onde antes havia uma jabuticabeira. Agora, após a ordem de derrubada da árvore onde o mendigo costumava pendurar seus sonhos, estava sendo erguido um chafariz. A justificativa do prefeito era de que a praça precisava se modernizar à moda de “cidades que existem para o mundo”.

Naquela noite, o homem doente anunciou sua partida. As crianças e outros moradores que mais se apegaram a ele, surpresos e tristes, foram se despedir do indigente com a mínima dignidade de que merecia, oferecendo sentimentos e bênçãos. Dele restou apenas a grande mala na praça.

Os curiosos que foram apressadamente colocar suas mãos sobre ela se assustaram com o pequeno peso de objeto tão volumoso. Na ausência de seu dono, a maioria foi a favor de abrir o lacre e acabar de uma vez por todas com o segredo do homem da mala. Sob poucos protestos, assim foi feito e todos puderam contemplar com seus próprios olhos: o vazio, pois nada havia nela. Ou, talvez (contam alguns), havia muito, tanto do que foi levado junto com seu último suspiro.


Originally published at mygrowingarden.blogspot.com on October 7, 2016.