Nossa relação com o Agora

Repousar o olhar. Observar, demoradamente. Procurar ao redor sorrisos, belezas, cores. Contemplar. Apreciar. Respirar fundo. Perceber o ar entrando, o ar saindo. Relaxar o corpo. Mudar para uma posição mais confortável. Sentir as batidas do coração. Ouvir os sons mais distantes. Focar-se nas sensações dos pés. Andar e ver onde pisa. Escutar como se não houvesse mais nenhuma outra ação. Concentrar-se em algum detalhe como se nunca o tivesse visto antes…

Para muitos/as de nós, tudo isso pode ser feito cotidianamente, em qualquer lugar. Não precisa esperar o fim da aula, do expediente, das compras, do trânsito. Não precisa esperar chegar em casa, chegar o fim de semana, chegar as férias, viajar.

Anos atrás, em um evento extraordinário¹, ouvi o seguinte: “Não hierarquizar momentos e situações.” E senti que era uma recomendação preciosa, que muitos benefícios poderiam vir daí, mas demorei para dar-me conta de que a chave para conseguir isso é estabilizar o modo como nos relacionamos com o Agora, independentemente do seu conteúdo.

Convivi com pessoas que assumidamente dividem o tempo entre “momentos relevantes” e “momentos irrelevantes”, o que tornou evidente para mim o quanto isso diminui bem-estar e qualidade de vida. Nos “momentos irrelevantes” é permitido estar desatento/a, desconectado/a, desconfortável, tenso/a, apressado/a, para chegar aos “momentos relevantes”.

Como escreveu Gustavo Gitti², “Esse processo acontece a cada encontro e termina por constituir toda uma cultura em que ações negativas se tornam cada vez mais naturais. Qual mente, qual vida, qual olhar estamos oferecendo o tempo todo por aí?”

A boa notícia é que podemos fazer continuamente escolhas novas, com firmeza e perseverança. Aspiro que consigamos honrar cada momento, tudo o que se apresenta, até reconhecer o UNo que se faz dIVERSO.

¹ https://vimeo.com/mestreaprendiz

² http://vidasimples.uol.com.br/noticias/pensar/voce-e-exemplo.phtml#.WHafsVNrjIU

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