“Os professores são cheios de preconceitos”


Livre-se deles. Você tem o poder de aprender sozinho.

Muitas pessoas — talvez você inclusive — compartilham essa percepção de Ray Bradbury, o famoso autor de clássicos da ficção científica como “Farenheit 451” e “Crônicas Marcianas”.

Ele aprendeu sozinho a escrever ficção, estudava em bibliotecas, longe dos carcereiros da educação.

Numa entrevista de 2010, dois anos antes de falecer, Bradbury defendeu a substituição das escolas pela livre aprendizagem em bibliotecas.

“Eu descobri que a biblioteca é a verdadeira escola”, disse Bradbury.

Selecionei os trechos da entrevista nos quais o escritor declara seu amor às bibliotecas, comenta suas estratégias de escrita e expõe sua aversão às escolas e ao trabalho.

(A íntegra está em inglês na The Paris Review.)

Bibliotecas e escolas

“Eu me eduquei na biblioteca. Nunca frequentei faculdade. Ir à biblioteca é muito mais divertido do que ir à escola simplesmente porque você faz sua própria lista de leitura e não tem que dar ouvidos a ninguém. Quando via os livros que os professores forçavam meus filhos a ler em casa para depois fazer uma prova, eu pensava: e se você não gostar daqueles livros? Os professores são cheios de preconceitos. As bibliotecas, por outro lado, não têm preconceitos. A informação está ali para interpretar. Você não precisa de alguém dizendo o que você deve pensar. Na biblioteca, você descobre por si mesmo. Sou um bibliotecário. Eu me descobri na biblioteca. Fui encontrar-me na biblioteca. Antes de apaixonar-me pelos livros, eu era apenas um garoto de seis anos de idade como outro qualquer. A biblioteca satisfez todas minhas curiosidades, dos dinossauros ao Egito Antigo. Eu descobri que a biblioteca era a verdadeira escola.”

Educação

“Nosso sistema educacional virou um inferno. Acho errado gastarmos dinheiro para educar adolescentes de dezesseis anos. Todo esse dinheiro deveria ir para a educação infantil no jardim de infância. As crianças deveriam aprender a ler e escrever. Assim, quando completassem seis anos de idade, estariam completamente educadas e poderiam cuidar da própria educação. A biblioteca seria o lugar onde elas cresceriam.”

O poder da imaginação

“A ficção científica é a ficção das ideias. Ficção científica é qualquer ideia que aparece na sua cabeça e ainda não existe na realidade, mas logo vai existir, e mudará tudo para todo mundo, nada será como antes. Todos os grandes cientistas leram ficção científica. Visitei grandes universidades e eles me confessaram: Sim, foi por causa da ficção científica que nos tornamos astrônomos; queríamos ver Marte mais de perto. Assim acontece em muitos campos de pesquisa. A necessidade de imaginação é uma constante.”

Trabalho

“É claro que eu adoro escrever. É a felicidade e a loucura da minha vida. Não entendo escritores que precisam trabalhar como escritores. Eu gosto de brincar. Gosto de divertir-me com as ideias, de jogá-las para cima como confetes e correr enquanto elas caem em cima de mim. Se eu tivesse que trabalhar como escritor, eu desistiria. Não gosto de trabalhar.”

Ser verdadeiro

“Você não pode escrever para outras pessoas. Você não pode escrever para a direita ou para a esquerda, para esta ou aquela religião, para esta ou aquela crença. Você tem que escrever do jeito que você enxerga o mundo. Eu digo às pessoas: Liste as dez coisas que você odeia e as destrua num conto ou num poema. Liste as dez coisas que você ama e as celebre. Sempre que você escreve para alguém, não importa quem seja, não importa o quão justa seja a causa na qual você acredita, você mente.”

Rotina

“Minhas paixões me conduzem para a máquina de escrever todos os dias da minha vida, e isso desde que eu tinha doze anos. Nunca precisei me preocupar com cronogramas. Escrevo o tempo todo. Este é o segredo: faça algo emocionante para você.”

Local de trabalho

“Posso trabalhar em qualquer lugar.”

Inspiração

“Eu gero ideias automaticamente hoje em dia. Mas antigamente eu precisava escavar meu subconsciente. Para isso, eu listava palavras que significavam algo para mim. Aí eu me perguntava: Por que escolhi essas palavras? O que esta aqui significa para mim? Então, começava a escrever pequenos pensamentos sobre cada uma delas. Uma prosa poética, evocativa, que tentava ser metafórica. Eu escrevia parágrafos curtos, descritivos, com cerca de duzentas palavras, nos quais examinava as palavras da minha lista. Aí eu trazia personagens para discutir uma palavra ou um lugar, e de repente surgia uma história em movimento. Eu costumava fazer algo parecido com fotografias que recortava de revistas luxuosas. Separava uma fotografia e escrevia alguns pequenos poemas em prosa a respeito dela.”

Planejamento

“Nunca planejo um enredo. Quando você planeja o enredo de um livro, ele perde toda vitalidade e energia. Fica sem sangue. Você precisa viver seu livro dia a dia e deixar os personagens agirem.”

Escrita e reescrita

“Assim que eu tenho uma ideia, escrevo um conto, ou começo um romance, ou componho um poema. Mais tarde retorno e corto várias frases. A maioria dos meus contos ficam longos demais no primeiro rascunho. É importante você abrir espaço para você mesmo. Limpar as amenidades, o lixo, esclarecer as coisas. Escrevo meu primeiro rascunho rapidamente, até mesmo de forma impulsiva. Alguns dias depois, reescrevo tudo de novo e meu subconsciente dita novas palavras conforme vou reescrevendo. Às vezes volto a reescrever repetidamente até ficar pronto. Outras vezes a revisão dura pouco.”

Escrever roteiros, contos ou romances

“Eu escrevo o que consigo escrever: contos.”

Desafios de escrever contos e romances

“O problema com o romance é permanecer verdadeiro. O conto, se a ideia realmente for intensa e empolgante, escreve-se por si só em algumas horas. Tento encorajar amigos estudantes ou escritores a escrever um conto num só dia, dessa forma o conto ganha um revestimento único, uma intensidade, uma vida, uma razão de ser. Duas ou três mil palavras em algumas horas não são assim tão difíceis. Apenas não deixe ninguém interferir. Mande as pessoas para longe, desligue o telefone, esconda-se, execute o serviço. Se você arrastar um conto para o dia seguinte, pode ser que o intelectualize de um dia para o outro, aí ele ficará complicado demais, ou talvez você se lembre de querer agradar alguém. Mas um romance tem todos os tipos de armadilhas porque demora mais para ser escrito e você vive rodeado de pessoas. Se não tomar cuidado, vai conversar com elas a respeito do que quer escrever. O romance também é difícil de escrever porque você precisa manter seu amor aceso, e é difícil permanecer animado por duzentos dias. Então, agarre a grande verdade primeiro. Se você agarrar a grande verdade primeiro, as pequenas vão acumular ao redor.”

Obrigado!