E se o gol qualificado valesse dentro de casa?

Sempre confundido com o valor de um gol a mais, na verdade a forma mais simples de contar esse valor extra é como um meio gol. Num confronto com resultado agregado empatado, quem marcou mais fora de casa tem meio gol de vantagem. E esse valor extra provoca centenas de discussões se ele devia existir cada vez que o seu time cai fora de um campeonato.

Colocando em contexto, a regra nasceu criada pela UEFA na Recopa Europeia de 1965, como maneira de evitar com que um terceiro e decisivo jogo precisasse existir. Na época, apenas 16% dos visitantes vencia jogos, viajar era complicado, caro e normalmente os faziam enfrentar condições bem hostis longe de suas cidades, longe da acomodação existente hoje. A tendência era se fecharem fora de casa, tentando manter o placar baixo, perdendo de pouco, para que pudessem reverter em casa.

Derrotas fora por 2–0 eram contornáveis, mas a UEFA queria convencer os visitantes que perder de 3–1 era ainda melhor porque esse gol marcado valia um pouco mais caso o resultado da volta fosse um 2–0 favorável, o que agora dava a vaga ao invés de provocar uma terceira partida.

Fonte: The Guardian — The question: is the away goals rule counterproductive?

Porém ao invés de incentivar com que times visitantes fossem mais agressivos e partissem mais ao ataque com o possível benefício do meio gol — que não existia antes — o que aconteceu foi que quem joga em casa se lança com muito mais cuidado justamente para evitar conceder essa vantagem. É só lembrar do seu time abrindo um mata-mata em casa (seja por causa do sorteio ou de uma campanha inferior) e você pensando o trabalho que ia ser virar o placar se o adversário marcar primeiro. Por outro lado, como visitante, um placar difícil de 2–0 num jogo em que tudo está dando errado pode ficar completamente reversível caso consiga um 2–1 no final do jogo.

“O Atlético de Diego Simeone implantou o plano tático perfeito para um mata-mata de ida e volta com gol qualificado fora valendo. ‘Não tome gols em casa’ foi sem dúvida a fase um daquele plano.”
- Atletico de Madrid vs Bayern de Munique, semifinal da UCL em 2016
http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-3574790/The-away-goals-rule-changes-dynamic-football-favours-caution-adventure-bin-now.html
Este bom texto do Bleacher Report fala até sobre um declínio no número de gols em playoffs após a adoção do gol qualificado, que pode ter a ver com ele ou não
http://bleacherreport.com/articles/2634844-its-time-for-football-to-kill-off-illogical-and-arbitrary-away-goals-rule

Existem algumas bizarrices, como o gol qualificado continuar valendo numa prorrogação, sendo que quem decide fora de casa tem meia hora extra para fazer um gol que vale mais, como naquela semifinal de Champions League em 2003, onde o Milan se classificou contra a Inter depois de um empate em 1–1 no jogo com o mando interista, mesmo com os dois jogos sendo disputados no mesmo estádio!

Este texto excelente de FourFourTwo argumenta contra a regra, dizendo que a maioria das questões endereçadas já foram resolvidas — como longas e duras viagens, maus tratamentos de adversários, a quantidade alta de gols marcados nas 2ªs partidas, confrontos decididos na moedinha — e ela não é mais necessária atualmente, inclusive a UEFA já sinalizou sobre discutir novamente o tema. Ótima leitura.

Em nosso país a Copa do Brasil já nasceu em 1989 com o gol fora qualificado e foi modificada em 2015 quando a regra parou de valer nas finais. Gostando ou não dela, é estranho acontecer uma coisa durante o campeonato e depois mudar. Na Libertadores, desde 2005 o gol fora de casa tem peso extra nos mata-matas antes da final, sem valer na decisão, o que ajudou a diminuir as decisões por pênaltis.

E diminuir o número de decisões por pênaltis é a coisa mais interessante do gol qualificado. Já vi meu clube ser eliminado por causa dela, mas pessoalmente gosto desse adendo ao jogo. Faz com que diversas vezes não exista mais possibilidades de pênaltis e um eventual gol mude o time classificado, incentivando o adversário voltar com tudo pra cima, tirar zagueiro pra colocar atacante, meter gente alta na área pra cruzar bola e aquele emocionante samba do crioulo doido que já conhecemos.

Não que a bagunça do final seja o ponto, isso pode acontecer em qualquer jogo, mas qualquer gol poder mudar o time classificado e isso tudo ser decidido com a bola em jogo é fascinante. É muito duro tomar um gol e precisar marcar dois para reaver a vaga que estava na mão um minuto antes, mas muito mais excitante do que ver duas equipes jogando a bola de um lado para o outro enquanto esperam os pênaltis. Também não sou contra pênaltis, é com certeza um momento para quem tem coração forte, mas muito mais legal decidir com bola rolando. A sensação de justiça e merecimento é maior.

Pensando nisso vem a proposta de inverter o beneficiado do gol qualificado. Ora, quem começa como visitante já normalmente tem uma postura mais defensiva para chegar à partida decisiva com um bom resultado em mãos, então a ideia de ser cuidadoso continua, além da tendência tradicional de começar um jogo contendo a pressão adversária quando está fora de casa.

Eventualmente times pequenos podem sofrer um pouco com esse fato quando jogam com grandes, sobretudo em copas nacionais, sendo presas mais fáceis nas partidas fora de casa, porém seus tentos em casa também poderiam ter um valor extra, somado ao fato de já estarem acostumados a jogar lá, independente da situação do estádio, gramado e proximidade da torcida, coisas que os maiores não enfrentam todos os dias.

O mandante então é compelido a procurar o gol, sem o medo de que um tento adversário defina o confronto cedo demais e aproveitando o incentivo de sua torcida que apoia com maioria e demanda uma vitória. Os jogos de ida poderiam ter mais gols já que a punição por tomar gol em casa não seria tão grande. Para quem joga fora, diminuir o prejuízo de um placar com 2 ou 3 gols abaixo continua sendo uma realidade e a única alternativa é… marcar.

As viradas épicas não deixariam de acontecer, elas fazem parte do esporte, mas as narrativas seriam outras. O Barcelona não precisaria fazer 6 no Camp Nou para eliminar o PSG, mas sim 5, o que não seria menos histórico, nem deixaria de ser a maior virada da história da Champions.

Os cruzeirenses também são orgulhosos do título da Copa do Brasil em 2000 com aquele gol de falta no penúltimo minuto, mas o sufoco podia ter sido menor. Outras decisões da Copa também terminariam de outra forma. Playoffs com placares 0–0 e 1–1 continuariam a ser chatos, mas aí não seria culpa do regulamento.

A dinâmica de jogar em casa ou fora seria mais fiel ao peso que o mando de campo concede. O time local pressiona, ataca e tenta construir superioridade em seus domínios. O visitante segura esse impulso o quanto pode e daí cada jogo se desenha conforme a qualidade das equipes. O gol qualificado em casa serviria mais para evitar pênaltis, beneficiar quem foi mais eficiente em seus domínios e manter a emoção onde um gol pode mudar tudo, que é a coisa mais alucinante do futebol.

Gostou?

No blog Visão Encoberta, compartilho outras ideias não convencionais, sobre tática no ponto de vista de um torcedor que está aprendendo mais profundamente como o jogo funciona.

Me conte o que ainda é nebuloso para você quando assiste a um jogo e eu vou estudar para entendermos juntos. Confira.