Carta para São Paulo

Eu te deixei ainda pequena e fui morar em um lugar onde chamavam "bolacha" de biscoito. Depois voltei, passei rapidamente perto daquele rio que cheira mal e fui para em outro lugar, aqui o sol queima a cabeça e, as pessoas, no começo, não se acostumaram com o meu sotaque misturado, esse de criança que queria escolher aonde ficar. Você sabe o quanto toda essa transição foi difícil pra mim, acho que a terra que a gente nasce sabe da nossa essência. Eu te odiava pelas enchentes na Vila Prudente, apesar de subir na cama e fingir que estava em um barco enquanto minha mãe tentava salvar alguns móveis. Adorava os passeios no parque, as pipas que vendíamos no domingo e o pastel de feira com fanta uva.

Hoje é seu aniversário e eu gostaria de agradecer por ter me acolhido novamente, mesmo que nossos encontros sejam passageiros, às vezes dura uma semana, no máximo um mês. Engraçado que, nos dias em que o ônibus chega na Barra Funda o coração falta sair pela boca, que nem aquele lance de primeiro amor. Agora, depois de grande, compreendo que você tem suas dificuldades, que ao mesmo tempo que existe amor, há desprezo, falta cor, a desigualdade falta gritar pelos cantos. Porém, em muitas esquinas sempre haverá algum tipo de sonho que irradia. Eu aprendi que somos um grão de areia tentando um lugar ao sol e que, viver disputando território ou atenções, é pra gente que nem sabe o que é sonhar.

São Paulo, eu não sei se um dia os nossos encontros terão mais de uma semana, um mês, até porque quando você me deixou ir era pra gostar mais do mundo. No entanto, você, lá no seu lado leste me ouviu chorar junto com os meus pais. Esses que você também acolheu, principalmente a minha mãe que chegou ainda nova para fugir do sertão. Apesar dos nossos problemas, gostaria de dizer que gosto muito de chegar e te encontrar, mesmo que bipolar, obrigada por me ensinar que eu posso carregar inúmeras malas e que, uma força maior estará me guiando e ajudando. Que você se torne cada vez mais humana, sei que é aos poucos, vou tentar não te pressionar, ok?

Feliz, 462 anos!