Quando chega outubro

"Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre o signo e o ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais do meu ascendente
enquanto faço as pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nómada
que cantava no deserto."
(Trecho de 'O aparecimento das caveiras no lençol da via láctea', Matilde Campilho)

(Outono, 2015)

Eu dormi no lado contrário da cama, às vezes eu gosto de desafiar meu próprio sono buscando movimentos e formas para o corpo cansado. Pois bem, acordei e bebi um copo de água gelada, ignorei o café frio das 9h, abri o caderno de viagens e um livro de poemas, lembrei que já era outubro. Não era de se duvidar o porque do vento e o cinza do céu, o mês dez sempre trouxe um ar de mistério, pois nos faz vestir mais roupas mesmo que o calendário acuse que a primavera já chegou.

Me lembro de ter escrito uma carta a mim mesma antes de viajar, fiz o favor de esquece-la no meu oratório, fui sem a carta. Em outubro do ano passado estava em busca de uma palavra que aqueles lugares estranhos significavam pra mim, também carregava muito medo e uma angústia, sempre me pareceu mais plausível fugir nos dias que antecedem meu aniversário, o dia dezoito. Por outro lado, não conseguiria ficar longe dos abraços. Eu chorei muito no dia dezoito de outubro de dois mil e quinze, tinha saudades das pessoas de longe, do novo que logo iria embora e de estar em um país que sempre tive vontade de conhecer. Cinquenta euros é o que eu tinha no bolso para sete dias, andei a pé e no ônibus de um euro e cinquenta, fomos ao aquário e ao cinema em que a tela era no teto, se tivesse um tipo de jogo do bicho na Espanha ficaria rica jogando na borboleta (talvez?). Percebi que do outro lado do oceano eu completava 'outonos' e não 'primaveras', ambas são as minhas estações preferidas e, apesar de não serem iguais, de alguma forma sempre chove no dia dezoito de outubro, pelo menos é assim desde que me conheço por gente.

Falta pouco para continuar e recomeçar tudo aquilo que tenho vontade. Ano pessoal um, confesso que foi melhor que o nove, no entanto, não menos difícil, ano dois já vem… Normalmente não planejo nada de especial, nem reuniões, muito menos festas, pois só quero correr com medo do meu interior ficar muito exposto e, ele fica, sempre ficou.

Dezoito dias, é o que o calendário diz.

Além do dia cinza, como de costume, percebi que meu livro favorito de poemas está com capa manchada e com alguns arranhões, em um ano quase completo algum caos tinha que acontecer.

Eu não tenho nenhuma foto da Espanha.


"Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel — celulose que vem da árvore e que depois se transforma em uma lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas."
(Trecho de 'M', Matilde Campilho)
(Portugal, 2015)