Ser mulher e fotógrafa

Eu posterguei muito para escrever esse texto, pois precisava refletir sobre cada palavra aqui colocada. Ando prezando pelo não instantâneo para me preservar e não ofender quem está ao lado. Espero que juntos possamos modificar o que ainda faz doer em algumas pessoas. Bom, não é de hoje que percebo o machismo na minha profissão, assim como não é de hoje que preciso me mostrar 10 vezes mais para acreditarem em meu potencial.

Há alguns anos atrás, tive que escutar do meu superior que ele não tinha segurança em deixar uma câmera na minha mão, no entanto para aqueles que estavam fazendo assistência só para ter um dinheiro a mais no final do mês a câmera era liberada, por sinal, muitas vezes ela apareceu quebrada. Agora trabalho por conta o que me dá um alívio, pois mesmo insegura algumas vezes não deixo de pegar a câmera e alçar meus próprios vôos. Porém, nas últimas duas vezes que sai da minha casa para trabalhar tive que me deparar com situações absurdas, como: o cara que me vê fotografando evento e quer me ensinar a trabalhar e, o cara que, me vê abrindo uma exposição e quer desmerecer meu trabalho porque ele é “artista” da cidade, afinal deve ser muito difícil ver uma mulher ocupando um espaço fora do estado/cidade em que ela reside ou nasceu. Esses são dois exemplos que aconteceram nos últimos dias, no entanto é algo que acontece com muita frequência, não só rola desmerecimento da parte masculina como assédio e afins.

Agora, depois de alguns anos viajando sozinha e trabalhando por conta, sendo dona da minha própria empresa, estou aprendendo a me defender. E as minas que nem sabe que esse tipo de atitude é machismo? Porque acontece tantas vezes que deve achar normal, eu achava normal na época em que meu superior falou aquelas palavras olhando nos meus olhos. Me sentia um lixo naquela época e pedia ao universo um modo de me encaixar no mercado profissional e ser boa em alguma coisa.

Essa só é parte de um relato enorme que, infelizmente, ainda não tem fim. No entanto, gostaria de levantar algumas questões, principalmente para quem mora no interior:

- Quantas fotógrafas você conhece (não to falando só de gente famosa)?

- Quantas exposições de fotógrafas você já foi na vida?

- Quantas vezes você quis falar do seu trabalho para essa fotógrafa, mas acabou desmerecendo o trabalho dela?

- Quantas fotógrafas você realmente admira e leva como referência?

- Em festivais de fotografia, seja na capital ou no interior, quantos nomes de fotógrafas aparecem na lista? Você, realizador, se importa com esses números?

- Quando você não pode realizar um serviço maneiro e/ou precisa de parcerias, você indica/procura também aquela sua amiga fotógrafa que manda bem ou só lembra dela em caso de ensaios de gestante ou casamentos?

- Com quantas fotógrafas você troca dicas e conhecimentos?

Eu conheço pouco das fotógrafas que residem em Sorocaba, pois sempre fiz parte de um ciclo muito masculino, no entanto estou me esforçando para sair, é um lance que afeta as mulheres também, pois somos ensinadas a competir sempre. Vamos refletir e rever na onde estamos sendo machista? Eu to fazendo meu trabalho e sei que tenho força para conquistar meu espaço, mas o mais legal é saber que, futuramente, esse espaço não será apenas dos homens. Assim espero!