Anos dourados

Não sou amiga de nenhum ex. Todos os términos de relacionamentos relevantes foram seguidos por um período de intenso sofrimento, quando eu cogitava mudar de cidade, morrer ou matar. Depois vinha um asco e, com alguns, o arrependimento de ter dedicado meu tempo a alguém que não tinha muito a ver comigo ou não me fazia bem. Digo sempre que, quando tiramos dos olhos a lente da paixão, coisas bizarras aparecem.

O único cara pelo qual não desenvolvi essa aversão, e o primeiro com quem tive um relacionamento saudável, foi justamente por quem mais sofri no fim. O tempo com ele trouxe à superfície minha insegurança de um jeito que me assustou. Foi esse fim que me levou ao começo da terapia.

O término foi há uns três anos, mas só há três meses senti que estava bem com aquela história e voltamos às conversas nos meios digitais. Ele me falou da vida, do emprego, do namoro atual, da família e foi tudo certo. Eu queria ser amiga dele, porque ele tem características que eu gosto nas pessoas.

Um dia, falamos em tomar uma cerveja.

Esse dia foi nessa semana.

Esse dia foi há dois dias.

Cheguei antes dele no bar. Minha perna tremia e meu coração estava acelerado. Sentei. Abri o Pinterest e passei na tela dezenas de imagens bonitas, enquanto seguia o conselho da minha instrutora de ioga para momentos de descompasso: respirar lenta e profundamente. Funcionou.

Vi pelo canto do olho que ele chegara. Olhei de frente. Como é bonito! Cheirava exatamente do mesmo jeito bom. Dizem que o olfato é um sentido muito poderoso em trazer lembranças. Sabe aqueles filmes em que a pessoa perde a memória e, de repente, rola um clique que desencadeia na mente uma torrente de acontecimentos do passado? Foi algo assim. Só faltou entrar Chico Buarque cantando como é desconcertante rever um grande amor.

Meu lado racional apitou: que erro estar aí! Você deveria mesmo era ir embora, mas sei que não vai, então aja naturalmente. Só que ser natural com ele é bom demais. São naturezas com uma compatibilidade incomum de tão boa. Era como estar de volta em um dos dias felizes da relação. Dizem que é impossível viver a mesma coisa duas vezes, por mais que seja o mesmo cenário e pessoas, mas o que estava acontecendo ali era uma reprodução exata do que vivi. E então lembrei do que passei tanto tempo procurando esquecer.

Li num texto aqui no Medium a frase “there is no reason to date someone you are not dating*”, que isso é como deixar flores em um túmulo. Tenho a premissa de não me colocar em situações das quais eu vou querer sair ou que vão me trazer algo ruim. Porém, me coloquei numa cena em que eu queria ficar. E não podia. Como dizer para o seu corpo que o que ele foi condicionado a fazer com aquele outro corpo centenas de vezes não pode mais acontecer? É tão cruel como exibir a comida preferida na cara de alguém faminto e dizer que não pode comer.

Essa noite me deixou desnorteada. Não teve choro nem nada, mas uma confusão enorme na cabeça e uma manifestação física maluca no corpo. Desde então, não teve conversa e acho melhor desistir dessa amizade. Tentei não pensar muito nisso e aguardar para falar hoje, sexta-feira 13 de lua cheia, na volta à terapia. Meu plano: sentar lá de frente pra moça e dizer “oi, feliz ano novo! Temos um velho assunto de volta. Já viu aquela frase que diz que ninguém esquece um vulcão?”.

Só que há alguns minutos chegou uma mensagem dela desmarcando a sessão.

Então escrevi.

*Não existe motivo para ter um encontro com quem você não está tendo um encontro. Fica ruim a tradução, né? Por isso deixei em inglês. E quem quiser ler esse texto, é muito bom e está aqui.