Ch-ch-ch-changes
A primeira vez que mudei de casa, quase morri. Meus pais disseram “vamos mudar para uma casa em outro bairro, mais perto do nosso trabalho” e eu ouvi: “você não vai mais ver suas amigas e o seu crush, não vai mais ter o trailer com a mulher que coloca milho no cheeseburger e te deixa pagar com o passe escolar, o que significa que sua vida social vai acabar e você nunca mais vai ter alegria em toda a sua existência neste planeta”.
Como eu chorei. Ah, chorei! Colocava Tim Maia no último volume e entoava entre soluços e lágrimas “ela partiuuuu! Partiuuu! E nunca mais voltou”, “e eeeeeu, gostava tanto de você!” e afins. Achava que Azul da Cor do Mar era sobre mim, que tinha muito pra contar, dizer que aprendi que na vida um nasce pra sofrer (eu) enquanto o outro ri (todos os outros que não iriam mudar de bairro).
Mudei. Odiava a cara dos vizinhos, a rua, o comércio, o ônibus, a casa. Achava tudo horrível e na primeira oportunidade seguia para o ex-bairro onde eu passava o fim de semana todo dormindo na casa dos amigos ou bebendo cachaça 51 com Sprite na rua até o horário de ter ônibus e voltar pro novo-bairro-merda.
Foi assim por alguns meses e, então, a vida, essa malandra, mudou várias outras coisinhas ao meu redor, de forma que estar em um lugar novo se mostrou muito bom, afinal, eu tinha um quarto só pra mim, a casa tinha quintal, meus pais estavam mais perto do trabalho, o transporte público era de melhor qualidade. Quando parei de ser teimosa-mimada-whitepeopleproblems e aceitei a mudança, deixei de me apegar ao que tinha de ruim no novo lugar e ao que tinha de bom no velho. E aí tudo fluiu muito bem.
Mas a gente nem sempre aprende de primeira e segui rechaçando mudanças. Queria manter tudo como estava, no lugar conhecido e, consequentemente, “seguro”. Lembro quando a instrutora que me dava aula de ioga disse que não ia mais continuar com aquela turma e eu pensei “por que tira ela de mim assim, Deus? Que desgraça! Vou ter que parar de fazer a única atividade física que gosto um pouco”. Eis que chegou a nova professora e eu passei a amar fazer ioga, evoluí muito nas posturas e na cabecinha também e foi maravilhoso.
Teve uma vez, quando eu fazia análise (❤ saudades!), que eu ficava repetindo “odeio mudanças! Odeio mudanças!” que nem uma matraca e a terapeuta perguntou: “querida, quando alguma mudança na sua vida foi pra pior?” QUE TAPA NA CARA! Ela tinha toda razão.
Nem sempre a gente valoriza a mudança como algo bom porque tendemos a achar que só é legal receber o que se pede. E mudar traz o que é preciso para aquele momento, o que não necessariamente é o que foi desejado. Depois de um tempo, olhando pra trás, você entende que tudo se conecta e faz sentido de alguma forma.
Mudar é inevitável, logo, lutar contra isso é uma batalha perdida. Aceitar não só dói menos, como te leva pra frente, pro lado de gente maravilhosa ou até para trás (e depois cinco passos para a frente). Como dizia Tim Maria (ou diria, porque não tenho certeza se ele falava mesmo isso, mas acredito que sim): só não vale ficar parado.
