Joana não tem livro preferido

Foto: Pinteres

“Qual é o meu livro preferido?”

Joana lera um post de uma colega no Facebook desafiando as pessoas a explicarem sua obra de literatura favorita sem citar o título. Ficou parada dez minutos diante da tela e foi incapaz de responder. Logo ela, que tinha a leitura como uma das melhores coisas da sua vida. Valter Hugo Mãe, Elena Ferrante, Gabriel Garcia Marquez e Jorge Amado eram pessoas tão importantes na sua história e ela não sabia dizer qual mexeu mais com sua cabeça.

Ficou uma semana todinha pensando nisso. Não conseguia desgrudar a cabeça da questão.

Dos livros, passou às cidades onde esteve. Somou mais essa à dúvida sobre os livros. Lisboa ou Salvador? Depois foi para os amores. O primeiro ou o último?

E por que o fato de não conseguir responder nenhuma dessas perguntas a incomodava tanto?

Porque não era sobre livros, viagem ou rapazes. Ah, os anos de terapia fazem efeito nos pensamentos.

O tema incomodava tanto porque desde que se entendia como uma pessoa, sempre quisera ser a preferida de todos os relacionamentos que construía. A namorada mais marcante, a sobrinha mais querida, a melhor companhia de viagem, a amiga mais lembrada. A vida toda, em todas as ocasiões, ela se esforçou para nunca ser preterida.

Não saber responder qual o seu livro favorito tinha, na verdade, sido a virada de chave para tirar essa pressão de Joana. Quando ela não conseguiu escolher “o melhor”, se libertou de querer ser “a melhor”. Assim como ela não conseguia e nem precisava elencar suas experiências e pessoas, entendeu que não havia necessidade de estar no topo da lista de ninguém. Cada coisinha que vivera e pessoa que conhecera tinha a sua importância.

A pressão de colocar tudo em uma ordem de preferência, felizmente, é totalmente dispensável. Hoje pode ser seu primeiro amor e Jane Austen em Berlim e amanhã Tolstói sozinha em Salvador. Cada momento da vida tem a cidade, o livro e a pessoa que cabem ali e, se não couber, Joana muda e escolhe tudo de novo.

Like what you read? Give Camomila a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.