O asno de Buridan

Paola estava há 9 minutos diante da prateleira do setor de brinquedos do Carrefour. O pai deixara escolher um presente e a garotinha travou diante das possibilidades: uma Barbie sereia? Mas não queria loira. Tinha a Teresa, do cabelo castanho, como o dela, mas não tinha sereia, só veterinária. E essas que parecem bebê de verdade? Tirando esse tufinho de nylon amarelo na careca. Hum. Tartarugas ninjas? É que são as quatro na mesma embalagem. Mas são bonecos muito pequenos. E aquele jogo? Detetive? Mas como faria quando acabassem os papéis que marcam as pistas do assassino?

Caramba, Paola. Decide!

Pegou uma boneca da Mulan, aquela princesa da Disney que foi à guerra, mas o caminho todo até sua casa, a menina foi pensando se não teria sido melhor o jogo de tabuleiro. Ou um Ken, já que tinha muitas bonecas mulheres.

Nos dias seguintes, tentou gostar das histórias que Mulan protagonizava no chão do seu quarto, mas não tirava da cabeça os brinquedos que tinham ficado no supermercado. Seria mais feliz com eles? Para piorar, semanas depois, no Natal, ganhou a mesma boneca Mulan do seu padrinho.

Já adulta, sempre achava que o prato que sua companhia escolhera devia ser mais gostoso. Não, nem quero experimentar! João Pessoa ou Natal? Janela ou corredor? Biologia ou Publicidade? Rodrigo ou Fernando? Mando mensagem ou não mando?

Numa quarta, saiu de manhã para o trabalho, sobre o qual tinha dúvidas se devia ou não pedir demissão. Iria por Pinheiros ou pela Vila Leopoldina? Atravessou metade da avenida e parou para olhar se o ônibus da outra direção estava vindo. Mas da onde é que surgiu esse táxi rápido assim? Volto para calçada ou sigo em frente até a outra? Será que dá tempo? Não conseguiu decidir: ficou parada. O carro não parou.

Like what you read? Give Camomila a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.