O primeiro domingo

Foto de Helder Sequeira (Reprodução)

Sempre detestei o domingo mas, quando passou a ser o nosso dia, comecei a gostar. Os de sol, quando a gente conversava no quintal, tendiam a ser alegres, divertidos e ficávamos ambos cheios de esperança: eu confiante em realizar os planos de viajar e viver em outra país; você de ter saúde o bastante para viver mais uns bons anos e me ver alcançar esses sonhos que passaram a ser seus também. Nesses dias de calor, você falava da geografia do seu país, de qual tipo de fruta encontrava em cada região, dos rios que cortavam sua terra e das estradas que te levaram a tantas cidades, pessoas e experiências. 
 
 Outros domingos não eram tão leves, geralmente os de frio e chuva. Seu corpo doía e o coração também. Você relembrava as histórias pesadíssimas do seu passado, chorava ao recordar de gente que amou e havia partido, de como a violência esteve presente em seus dias e eu, esponja de sentimentos alheios, sentia um pouco da sua angústia por essas coisas que nunca passei. Você me ensinou, indiretamente, a reconhecer alguns dos muitos privilégios que tenho na minha vida. Sempre imagino a cena de quando chegou neste país sem lenço ou documento e ficou sozinho no Porto de Santos sem saber em que direção seguir. Ou quando sua primeira esposa morreu, deixando um buraco cheio de tristeza em você e no seu filho, a dois dias dele completar o sexto ano de vida. Penso nisso e parece que tem uma mão apertando meu coração e outra minha garganta. 
 
 Mas domingo passado foi inédito. Pela primeira vez, a gente não teve escolha se nos veríamos ou não. Neste dia, não teve tomatinho cereja que você fazia questão de guardar pra mim ou atualização sobre a saga da Lusa em continuar sendo um time de futebol relevante. Estarmos juntos não foi uma opção. Mas foi um dia de sol, e achei que deveria tocar de um jeito leve, falando sobre a história linda de 29 anos que tivemos juntos. O seu não sei como foi, mas espero que tenha sido suave e que tenha tido reencontros felizes.

Não sei se são dos genes ou dos nossos domingos que tanta coisa sua ficou em mim: a melancolia nos dias nublados e a tendência ao drama, por exemplo. Lembro do dia em que cheguei na sua casa e você esbravejava sobre alguém. Pelo jeito tão sentido, pensei que tivesse brigado com o seu irmão ou com um amigo. Ouvi atenta, perguntando quem tinha te ofendido, e você respondeu que era o Cristiano Ronaldo, que perdera um pênalti numa partida importante pela seleção de Portugal. Escondi o riso pra não correr o risco de te ofender também. 
 
 Sei também que tenho sua força para não cair quanto as coisas vão mal: olha eu aqui em pé no meio do turbilhão que tem sido este ano. 
 
 Além dos ensinamentos que você pontuava que eu devia lembrar por seu avô ter dito, muita coisa eu peguei sem você precisar verbalizar: como que pessoas machucadas tendem a machucar, mas que elas podem mudar de verdade, com amor e com tempo. E que tem gente grosseira no jeito de falar, mas é porque pode ser o único jeito que conhece de se fazer ser ouvida.
 
 Mas o mais importante, que soa até clichê, mas faz toda a diferença: falar o quanto ama alguém toda vez que tiver oportunidade, pois assim o coração fica menos apertado quando chega a o dia em que não é possível dizer esse “eu te amo” cara a cara. Que bom que você me disse tantas vezes e eu falei de volta. Você sempre vai ser a melhor parte dos meus domingos.

(PS irônico: hoje é dia dos avós.)

Like what you read? Give Camomila a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.