Sobre nomes
Desde o dia em que levou pra casa o biscoito de polvilho doce por engano, Laura passou a prestar muita atenção às embalagens. Pegou um saco da versão salgada e andou até o caixa do supermercado.
“Bom dia. CPF na nota?”, perguntou a funcionária do estabelecimento.
“Bom dia! Não precisa, não, obrigada”, respondeu Laura, que nunca conseguiu cadastrar a senha para resgatar os créditos da nota fiscal paulista.
“Sacola?”, questionou, seguindo o script. Pra espantar o tédio, tinha adotado uma contagem de clientes atendidos, tentando identificar um padrão de comportamento em pessoas correspondentes aos números pares, ímpares e às dezenas. A mocinha ali era a 13.
“Também não precisa, Shayene, obrigada”, disse, levantando a sacola reutilizável com o logo do supermercado concorrente.
Ao ouvir seu nome, cerrou os olhos na direção da mulher do outro lado do balcão metálico e soltou uma risada.
“O que foi?”, perguntou Laura, também sorrindo.
“Ninguém chama a gente pelo nome. Achei engraçado ouvir você falar o meu”, explicou, passando o biscoito de polvilho e a garrafa de dois litros de iogurte pelo leitor infravermelho.
“Ué, mas tá aí escrito no seu crachá, não é?”, perguntou apontando para o retângulo preso na camisa polo laranja com o logo do supermercado, que era uma coruja bizarra.
“Ah, sim, mas as pessoas não reparam nisso, não. Só quando é pra reclamar e dizer que vai dar nosso nome pro gerente”, contou rindo de novo. “Deu R$ 13,90.”
“Pode passar no crédito, por favor”, pediu Laura, estendendo uma nota de R$ 20 e sem conseguir formular um comentário para a informação que acabara de ouvir.
Pegou o troco, colocou a compra na ecobag e agradeceu.
Deu três passos na direção da saída do supermercado e ouviu Shayene gritar: “Ô, moça! Moça!”.
Ela voltou o olhar para a senhora, que justificou: “Eu quero saber o seu nome também”.
“Ah! É Laura.”
“Olha só, que nome lindo! Tchau!”
“O seu também é! Tchau, Shayene!”
Laura foi sorrindo pelo trajeto até sua casa, achando curioso e triste ao mesmo tempo perceber que tem gente que desacostuma a ser tratada pelo nome dependendo da sua função. Shayene anotou mentalmente a boa referência ao número 13, para acompanhar se era um novo padrão.
