Sobre nomes

Camomila
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Jul 22, 2017 · 2 min read

Desde o dia em que levou pra casa o biscoito de polvilho doce por engano, Laura passou a prestar muita atenção às embalagens. Pegou um saco da versão salgada e andou até o caixa do supermercado.

“Bom dia. CPF na nota?”, perguntou a funcionária do estabelecimento.

“Bom dia! Não precisa, não, obrigada”, respondeu Laura, que nunca conseguiu cadastrar a senha para resgatar os créditos da nota fiscal paulista.

“Sacola?”, questionou, seguindo o script. Pra espantar o tédio, tinha adotado uma contagem de clientes atendidos, tentando identificar um padrão de comportamento em pessoas correspondentes aos números pares, ímpares e às dezenas. A mocinha ali era a 13.

“Também não precisa, Shayene, obrigada”, disse, levantando a sacola reutilizável com o logo do supermercado concorrente.

Ao ouvir seu nome, cerrou os olhos na direção da mulher do outro lado do balcão metálico e soltou uma risada.

“O que foi?”, perguntou Laura, também sorrindo.

“Ninguém chama a gente pelo nome. Achei engraçado ouvir você falar o meu”, explicou, passando o biscoito de polvilho e a garrafa de dois litros de iogurte pelo leitor infravermelho.

“Ué, mas tá aí escrito no seu crachá, não é?”, perguntou apontando para o retângulo preso na camisa polo laranja com o logo do supermercado, que era uma coruja bizarra.

“Ah, sim, mas as pessoas não reparam nisso, não. Só quando é pra reclamar e dizer que vai dar nosso nome pro gerente”, contou rindo de novo. “Deu R$ 13,90.”

“Pode passar no crédito, por favor”, pediu Laura, estendendo uma nota de R$ 20 e sem conseguir formular um comentário para a informação que acabara de ouvir.

Pegou o troco, colocou a compra na ecobag e agradeceu.

Deu três passos na direção da saída do supermercado e ouviu Shayene gritar: “Ô, moça! Moça!”.

Ela voltou o olhar para a senhora, que justificou: “Eu quero saber o seu nome também”.

“Ah! É Laura.”

“Olha só, que nome lindo! Tchau!”

“O seu também é! Tchau, Shayene!”

Laura foi sorrindo pelo trajeto até sua casa, achando curioso e triste ao mesmo tempo perceber que tem gente que desacostuma a ser tratada pelo nome dependendo da sua função. Shayene anotou mentalmente a boa referência ao número 13, para acompanhar se era um novo padrão.

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“Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.”

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