Atrasado, desci pelo elevador, cumprimentei o porteiro e fui para o ponto de ônibus. Estava impaciente já. Vi meu ônibus vindo, longe, acenei, esperei o motorista parar e entrei:

– 4,50 trocado já, motorista.

– Tá bom.

Roleta liberada e fui procurar algum lugar pra sentar. Não gostei dos lugares da frente, nos do meio tinha gente. Tive, portanto, que me dirigir para os últimos lugares. Olhei, rapidamente, e vi um lugar vazio. Sentei.

- e preciso que vocês entendam algo: tem ônibus aqui que os passageiros ficam de frente uns para os outros, o que peguei, no caso, era assim -

Do meu lado, uma criança com seus 4~5 anos e, no banco de frente para nosso, a mãe da criança.

– Mãe, a gente pode tomar açaí hoje? Falava o menininho com a cara no vidro vendo os carros.

– Pode sim, a gente toma

– Quando a gente for tomar, eu quero tomar açaí de sorvete – falou o garoto sério.

– A mãe retrucou, olhando com um ar de risada: Mas se é sorvete não é açaí.

– É açaí sim, mas é de sorvete.

A mãe riu, e o menino ainda com a cara no vidro, voltou a falar com a mãe:

– mãe, porque o chão tá pegando fogo? Foi de repente que eu comecei a olhar para o vidro, procurando a existência desse fogo.

– Fogo? Onde você tá vendo fogo? Não é fogo, filho, é a luz dos carros – respondeu a mãe

O menino não se convenceu, mas evitou perguntar de novo.

– Mãe, na hora que a gente chegar em casa, eu posso me olhar no espelho?

– Claro que pode!

Não vou negar que fiquei maravilhado com o que vi. Quando foi que a gente parou de ver coisas nas coisas? Por que luz não pode ser fogo? Por que não pode existir açaí de sorvete? A gente vive querendo estabelecer regraS na vida da gente, quando, na verdade, quem faz a regra é a gente. Um desses filósofos modernos falava que a cabeça da gente é que vê sentido nas coisas. E não é que esse cara tá certo?

Chegando no meu ponto, levantei, e fui pra porta. Quando desci, fiquei vendo pra onde o menininho olhava: com a cara na janela, apontava pra tudo, e, com certeza, fazia milhões de perguntas pra mãe.

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