VA-11 HALL-A: 20 e tantos anos

Opassa
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Aug 22, 2017 · 5 min read

A língua alemã tem umas palavras muito interessantes, certeiras talvez seja a melhor definição. Devido à sua morfologia, palavras e conceitos se unem para criar uma ideia. As primeiras palavras trazem a especificidade, e a última o geral, ou melhor, a essência daquela coisa. Existe uma palavra, por exemplo, chamada “Torschlusspanik” — pânico por ver que a porta está fechando. A essência do sentimento é pânico, e o específico dele é a porta que se fecha. Se você tem entre 25 e 30 anos, talvez esta noção seja algo que você entenda ou sinta. A Jill, protagonista do Va-11 Hall-A, tem 27.

Ela vai levando a vida como essa se apresenta para ela. Mesmo seu trabalho como bartender foi algo que se desenhou sem ela traçar esse objetivo em um momento anterior. Ela vive em um mundo distópico, e passar anos se preparando e traçando objetivos é coisa de quem não tem que se preocupar com o que vai comer amanhã pelos próximos anos. A vida de muita gente vai indo pela correnteza. “Os homens fazem a sua história, mas não a fazem como querem” ou “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”.

A vida foi levando a Jill, e em algum momento ela se encontrou atrás do balcão de um bar, preparando drinks e mudando vidas, ou assim ela tenta enxergar seu cotidiano. E entre clientes e amigos com diferentes histórias de vida, uma dose de álcool costuma ser das melhores companhias.

Tanto parte dos clientes do Va-11 Hall-A, quanto a própria Jill, deixaram um bom tanto de histórias no passado. Quando você já passou do início da vida adulta há uns anos, é natural que tenha vivido uma série de relacionamentos que acabaram. Amizades que se enfraqueceram e deixaram de existir no cotidiano; amores que acabaram deixando aquela dor que sentimos em um órgão que não temos mais ou que nos ensinaram uma boa dose de cinismo.

A dose de cinismo costumeiramente vem acompanhada de uma dose de conhaque. A Jill costuma, por sua vez, ser quem serve esse “conhaque”. Não que existam bebidas como conhaque, tequila ou cerveja, já que tudo que é misturado e servido por ela é uma emulação de drinks que existiram no passado, quando ainda havia acesso às matérias-primas envolvidas. Mesmo passando maior parte do tempo preparando e não bebendo, Jill também toma seus pileques de vez em quando.

É sempre proveitoso tirar datas especiais, cada vez menos frequentes, para fugir da degradação social e embriagar-se como nos embriagamos na juventude. Dá para aproveitar o momento e tentar exorcizar o passado, para tentar começar a resolver as coisas no presente. A Jill acaba dividindo mais com suas amigas a sua vida durante umas bebedeiras ocasionais. Existe muita culpa, muita incerteza, que vem de anos anteriores e permanecem oprimindo o cérebro enquanto tentamos levar a vida, seguir a correnteza.

Junto ao troiano espólio dos relacionamentos passados, restam as incertezas do caminho que estamos tomando e, sobretudo, uma espécie de culpabilização e tormento constante pela vida não ter seguido outro caminho. Uma das lições mais difíceis, e que muita gente nunca aprende, é entender que uma escolha por algo significa abrir mão de tantos outros caminhos.

A Jill levantou e escolheu algo, e passou os últimos anos lidando com essa escolha. Servindo drinks e mudando vidas. Seu amor ficou no passado; seus erros e escolhas também. O Va-11 Hall-A vai fechar. E agora, José? A festa terminou, a luz apagou, o povo sumiu, o Karmotrine acabou. E agora, Jill? E agora, você?

Mas a Jill vai em frente, como muitos não conseguem ir até pelo fato de que muitas vezes existem condições psicológicas envolvidas. A Jill consegue. Mas ir em frente não quer dizer que cicatrizes e problemas não fiquem pelo caminho.

Você tá lá, trabalhando e lidando com outras pessoas. Serve uma, duas, três doses. No caso da Jill bartender, a quantidade de álcool presente nos drinques que ela serve vai ajudar a mudar sutilmente o rumo das conversas com seus clientes, sejam eles amigos ou não. Eu, que tenho bastante interesse por narrativas em geral e por narrativas em videogames particularmente, até penso em falar mais, algum dia, de como Va11-HallA, o jogo, não o bar, trabalha com a ideia de opções de diálogo “escondidos” em um sistema. É coisa fina, ainda que bastante tímida em termos de opções e desdobramentos. Veja, isso aqui é uma Visual Novel, e um jogo independente, aliás. No caso da Jill, pessoa, cada uma dessas interações mostra um pouco mais quem ela é, para gente e para ela também. E em algum momento a porta começa a fechar. O sentimento é, de fato, que o espaço diminui e que o futuro é cada vez mais presente. O tempo passou, e com a diminuição do tempo que resta chega também a conta do passado. Do que vivemos, fosse por escolha ou levados em correnteza. Levados, sempre somos. Resta alguma escolha? Esperamos sempre que sim, mas nunca se sabe. Pode ser que tudo que vivemos é justamente aquilo que iríamos viver, escolher e interagir de qualquer forma. Sem destino. Sem metafísica. Puramente social. Puramente processo. Mesmo que a Jill concordasse com a ideia de que tudo que fazemos é justamente o que poderíamos fazer, dificilmente isso apagaria alguns medos, dúvidas e arrependimentos. Não apaga. O bar está fechando, não só por hoje, mas talvez para sempre. O futuro bate novamente à porta, cada vez mais presente. A porta vai fechando. Sempre fecha. Não tem muito o que podemos falar sobre o fim dessa história. A Jill, provavelmente, arranjou um jeito de seguir em frente. Se tornar cada dia mais adulta, crescer.

Eu, da minha parte, desesperadamente grito em português. E que bela língua, também, a nossa. De tanto viver, de tanto observar, a gente acaba substantivando o verbo, fazendo com que a ação se torne ela mesma. Que a ação encontre sua própria essência, a coisa em si, para pensar em termos alemães. Para mim e para Jill, se trata apenas da vida vidando.

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