Afinal, o que é design televisual?

Design televisual? Provavelmente você nunca ouviu falar nesse conceito (ou algumas vezes por esse que vos fala). Talvez porque ele seja mesmo pouco difundido, tanto na academia como no mercado, embora seus produtos e efeitos sejam intrínsecos à indústria e cultura da televisão. Em linhas gerais, o termo define as práticas, os processos e os produtos de design que visam atender a demandas estéticas, funcionais e comunicacionais dos canais e conteúdos televisivos.

Entre os profissionais relacionados a essa indústria, o design televisual é usualmente conhecido como "broadcast design". É possível encontrar ainda outras variações ou expressões similares, tais como "broadcasting design", "TV design" ou "on-air look". Entretanto, a preferência pela expressão “design televisual” se deve principalmente pela desatualizada e limitada terminologia que entende a tevê com um sistema de radiodifusão. Sabe-se, entretanto, que a televisão não se resume a sua forma de transmissão e que tampouco se restringe a essa tecnologia.

Pacote videográfico dos canais Telecine (2010).

Bem verdade que o adjetivo "televisual" é apresentado e assumido por poucos autores. Entretanto, ao usá-lo, reforçamos uma ideia mais alinhada ao entendimento das especificidades da mídia televisiva. Uma forma de conexão ao conceito de televisualidade, apresentado por John Cadwell, que discute, entre outras coisas, o investimento estético dado aos conteúdos apresentados na televisão americana a partir dos anos 80 e a consolidação de um estilo televisivo que, entre outros fatores, envolveu a melhoria da qualidade das imagens transmitidas, a sofisticação formal e técnica dos produtos televisivos e o reconhecimento da necessidade de uma identidade ou estilo próprio entre os canais e seus programas.

Nesse contexto, a participação do design passou a ser um dos elementos mais significativos desse processo. Eventos visuais, sonoros, estáticos e animados, muitas vezes percebidos como elementos meramente alegóricos, distribuídos ao longo da programação de um canal, foram se tornando os principais responsáveis pela articulação e planejamento dos fluxos de transmissão dos canais.

Pacote videográfico do canal Fox 17 West Michigan (2013).

Essa prática projetual decorre justamente da necessidade estratégica de organização de um espaço calcado pela fragmentação e simultaneidade dos discursos. Sinais, representações e linguagens podem aparecer em uma mesma tela de um único programa ou nos diferentes fluxos concomitantes dos vários canais acessados através do zapping. Cada uma dessas informações visuais, textuais e sonoras disputam a atenção de uma audiência usualmente dispersiva. Que não é a característica da totalidade dos telespectadores, mas certamente os diferenciam dos consumidores de cinema, por exemplo, que possuem um comportamento mais concentrado e pontual.

Portanto, os videografismos, interfaces videográficas e demais produtos do design televisual apresentam funções específicas que diferem de qualquer outra mídia. Assumem competências do design gráfico, do motion design e do design de som aliados a estratégias de marketing e usabilidade de modo a atingir com maior eficiência a audiência televisiva.

Seleção de aberturas do cinema e televisão.

Uma dessas atribuições está relacionada ao de embalagem dos conteúdos. Afinal, os programas assumem a condição de produtos, com qualidades que considerem às expectativas da audiência consumidora e dos patrocinadores. Além de separá-los sintaticamente e rotulá-los em unidades reconhecíveis, as vinhetas de abertura e de encerramento exploram recursos estéticos e simbólicos que estimulem a permanência do espectador em frente à tela e oferecem informações técnicas (os créditos) relacionadas aos profissionais envolvidos na produção.

Ao mesmo tempo, é responsável por produzir a sensação de unidade ou coesão do fluxo. Os enunciados, mesmo fragmentados, precisam ser encadeados de modo a serem percebidos como pertencentes a um só discurso e identidade. O programa, assim como os videografismos, não devem ser projetados isoladamente, mas correlacionados com o decorrer da programação. As vinhetas institucionais, por exemplo, funcionam como elementos transitórios ou de ligação entre uma atração e outra.

Pacote videográfico do canal VH1 (2013).

Outra característica é a sinalização. Situar o espectador sobre qual momento ele está inserido quando acessa a determinado canal ou programa durante o zapping. Sentenças recorrentes como “a seguir”, “daqui a pouco” e “ainda hoje”, juntamente com outros enunciados gráficos, textuais e sonoros inseridos entre e durante as atrações, orientam a audiência e podem eventualmente estimular a sua permanência do espectador no canal.

A autopromoção é outro papel do design televisual. Deve contribuir para a divulgação das ações institucionais da emissora e, principalmente, de suas atrações durante a programação. Em razão da quase onipresença da televisão por algumas décadas, a maior parte da publicidade das atrações das emissoras costumava ocorrer nelas próprias, diferente de outras mídias. O cenário atual indica a necessidade de uma pulverização das plataformas de publicidade de determinado conteúdo. Mesmo assim, as chamadas videográficas ainda são um dos recursos mais utilizados pelos canais e sistemas televisivos.

Pacote videográfico do canal Style (2010)

Uma outra função, talvez essa a mais óbvia, seja auxiliar na construção da identidade ou branding. Apresentar atributos e valores intangíveis da marca do canal e seus programas, contribuindo para fundamentação de um posicionamento sólido. As vinhetas, em geral, são responsáveis por informar as características conceituais do canal e desenvolver vínculos emocionais com o telespectador.

E, é claro, o design deve sobretudo tornar a experiência de consumo mais envolvente e atraente através de soluções estéticas e comunicacionais adequadas e interessantes. Afinal, os canais precisam atrair a audiência, promover repercussão e tornar-se um potencial espaço para anunciantes e patrocinadores.

Pacote videográfico do canal Eurosport (2016).

Vale ressaltar, entretanto, que o design televisual não se restringe apenas ao consumo passivo dos fluxos audiovisuais dos canais. Com a consolidação da televisão digital e da popularização de novos modelos de negócio audiovisuais, é possível verificar emergentes comportamentos de consumo, envolvendo experiências cada vez mais participativas, assíncronas, segmentadas e interativas. O que garante não só um fortalecimento da relevância do design televisual, como impõe novos desafios e oferece novas potencialidades.

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Texto original de André Luiz Sens.