Time de Fundadores: Existe perfil certo?

Entenda porque o perfil dos sócios fundadores pode ser a diferença entre a vida ou a morte de uma startup que está começando.


Que a vida de um empreendedor é uma eterna corrida de fórmula 1, de alta performance, numa pista de montanha russa, cheia de curvas e imprevisibilidades, não há dúvidas. Como enfrentá-la, é uma decisão difícil que todo fundador tem que tomar… Para funcionar, toda Ferrari ou McLaren precisa de uma boa linha de frente: um piloto preparado para guiar o carro na pista, um gestor com visão estratégica da competição e um técnico que garanta que estão correndo com o melhor carro. Escolher bem a equipe principal será uma das decisões mais importantes que você, como empreendedor, deve tomar no início de um negócio. Uma das dúvidas mais frequentes que ouvimos é como encontrar os melhores e mais preparados sócios para o negócio. Perguntas como “Como eu encontro o(a) parceiro(a) ideal para começar a empresa?”, “Quais habilidades ele(a) precisa ter?” e “É melhor que seja um(a) amigo(a) ou alguém que eu não tenha relação pessoal?” são pertinentes na hora de escolher seu(sua) co-fundador(a). Aqui vão alguns insights que aprendemos com a nossa rede de fundadores que estão algumas casas na frente de quem está começando.


Como eu encontro o parceiro ideal para começar a empresa?

Esta é, sem dúvida, a primeira das grandes perguntas sobre esse tema. Podemos dividi-la em duas outras questões: onde eu encontro meu sócio ideal e qual o seu perfil? Antes de respondê-las, um alerta: nem sempre o sócio ideal é seu melhor amigo ou a pessoa com quem você gosta de dividir ideias no bar. Uma sociedade, assim como um relacionamento, é feita de altos e baixos e você precisa garantir que não case com alguém que pode pular fora na primeira DR. Para o negócio dar certo pode levar cinco, sete ou até mais de dez anos. É um contrato de longo prazo. Dito isso, seguem alguns aprendizados e cases que podem te ajudar:

Tinder ou bar?

É comum entre as histórias de startups que estão indo bem encontrar sócios fundadores que tenham se conhecido em trabalhos anteriores ou durante um curso, como na graduação ou MBA. Benjamin Gleason e Thiago Alvarez, cofundadores da plataforma de serviços financeiros GuiaBolso e parte da nossa rede, trabalharam juntos na consultoria McKinsey e o ‘match’ foi perfeito. Anos depois, quando cada um tinha seguido seu caminho, eles se reencontraram e perceberam que compartilhavam as mesmas inquietações e ambições. Fora o alinhamento de visão de longo prazo dos dois, o mais importante foi a confiança mútua, construída ao longo do tempo em que trabalharam juntos. Hoje o GuiaBolso tem 4,5 milhões de usuários, é uma das startups brasileiras que mais receberam investimentos de fundos até agora (R$215 milhões em cinco rodadas) e teve seu valor de mercado avaliado em mais de R$ 1bi.

Na ContaAzul, por exemplo, empresa que vende softwares de gestão de contabilidade para pequenas empresas e escritórios contábeis, os três sócios fundadores também trabalharam juntos em algum momento. Vinicius Roveda conheceu José Carlos Sardagna em seu primeiro estágio, no ano 2000, quando ele era seu chefe. Os dois trabalharam juntos também em outras empresas. João Zaratine, o terceiro co-fundador, foi um dos estagiários contratados pelo Vinícius em uma dessas companhias. O benefício de encontrar alguém com quem já trabalhou é que você já sabe qual o perfil daquele profissional e confia que ele vai entregar o que promete. A confiança é a base de qualquer relação.

Se você não tem muitos colegas de trabalho com quem estaria disposto a embarcar num negócio, talvez valha a pena buscar cofundadores com interesses comuns aos seus em cursos, workshops, eventos do setor ou amigos em comum. Sua rede de contatos pode ser bem útil nesses casos.

Perfect match

Tão importante quanto confiar uns nos outros, os sócios precisam se complementar no dia a dia. Isso não quer dizer que os perfis devam ser opostos, mas que um negócio vai demandar um desdobramento de funções e o ideal é que cada sócio execute o que pode fazer melhor (por conta de experiências prévias, formação ou até mesmo preferência pessoal). Mate Pencz e Florian Hagenbuch, fundadores da Printi (um marketplace de serviços de impressão) e sócios do Canary, por exemplo, parecem, à primeira vista, a mesma pessoa. Ambos europeus, formados em negócios nas melhores universidades americanas, com forma de pensar parecida e muito amigos. Independente do histórico semelhante, emprestando os termos definidos por Peter Thiel em seu livro “De zero para um”, metade da dupla gosta muito da fase “0 para 1” de uma startup, ou seja, de tirar as coisas do papel, já o outro prefere a fase de escala “1 para n”, que demanda competências bem diferentes. Apesar de Mate e Florian liderarem a Printi juntos, suas preferências pessoais se desdobraram em motivações e escopos complementares em cada fase da empresa. É importante reforçar o horizonte de tempo quando se pensa em um co-fundador, dado que os objetivos de vida devem estar alinhados.

Considerando isso, vamos à próxima pergunta:

Quais habilidades, então, ele(a) precisa ter?

Cada panela tem sua tampa, diz um ditado por aí. No amor e nos negócios, não há uma única tampa e uma única panela. Cada modelo de negócio e mercado vão exigir sócios com habilidades diferentes. Um marketplace, por exemplo, não precisa de alguém tão especializado em desenvolvimento de algoritmos como uma startup de robótica, inteligência artificial ou que quer produzir e lançar satélites no espaço. Mas precisa de pessoas com experiência para tocar as áreas de marketing, parcerias e comercial. Uma startup que desenvolve software para empresas (B2B) precisa de alguém que entenda de desenvolvimento de produto, mas também de um sócio que esteja disposto a gastar sola de sapato para entender o que seus potenciais clientes buscam, onde eles procuram essas soluções e quanto estão dispostos a pagar. Já um negócio de tecnologia voltado para consumidor final (B2C), precisa de sócios que entendam de aquisição de consumidores e design de produto.

No ContaAzul, por exemplo, os sócios se dividem de acordo com as habilidades principais de cada um. “José Carlos Sardagna é o cara da tecnologia e do produto. O João Zaratine é mais ‘coringa’, acabou ficando no marketing porque precisávamos escalar rápido. E eu fiquei com o lado business, sou o CEO e quem fala com os investidores”, conta Vinicius Roveda, co-fundador da ContaAzul no Canary Cast, podcast no qual conversamos com alguns empreendedores da nossa rede

Esse conjunto de habilidades dos sócios fundadores é o que o mercado chama de set of capabilities ou skill set. Esse é um dos pontos que qualquer investidor (inclusive nós no Canary) vai olhar antes de investir em sua startup. “Se encontrou algo pelo qual é apaixonado, faça. Mas não faça sozinho. Empreender é um processo solitário e difícil. Ache um co-fundador que saiba tudo sobre aquele mercado. Entenda no que você é bom e no que precisa ser melhorado e tente achar alguém para te melhorar naquilo, alguém que te complete. Tem que ser uma relação Batman e Robin mesmo. E não tenha medo de contratar alguém melhor que você”, resumiu bem Renata Quintini, parte da nossa rede e sócia do fundo de investimento americano Lux Capital, que investe em empresas com tecnologias inovadoras nas áreas da Ciências.

Vale ouvir os papos completos com Vini e Renata :).

Qual é meu Robin?

Se pudermos dar uma dica, com base no nosso aprendizado até então, é para você buscar alguém com experiência no setor que quer atuar (ou atuar no setor que você já conheça). O conceito “founder market fit” (fundador com habilidades compatíveis com o seu negócio) é muito usado no mundo do empreendedorismo para falar da necessidade dos fundadores terem um profundo conhecimento do mercado no qual querem atuar. Isso significa conhecer a fundo a dinâmica do setor, seus competidores, as dores de seus futuros clientes, o que estão buscando e ter networking de contatos úteis no meio. Se você quer criar uma empresa que usa inteligência artificial para descobrir novos remédios terapêuticos, precisa ter alguém que entenda tudo sobre inteligência artificial e alguém que saiba o máximo possível sobre o mercado de remédios terapêuticos.

Pelo menos um dos empreendedores precisa ter trabalhado na área ou ter feito uma imersão profunda no tema — ser quase um PhD no assunto e saber tudo na ponta da língua. Lembra do exemplo da Fórmula 1? Se você é uma pessoa com perfil mais técnico e sabe desenvolver / programar o melhor carro, precisa procurar alguém que entenda tudo de pistas de alta velocidade e saiba pilotar um carro em uma. Além disso, os fundadores precisam ser apaixonados pelo tema. O grande risco de encontrar um sócio que não goste do mercado é que ele enjoe e desista no meio do caminho. Saber identificar a diferença entre um sócio obcecado pelo que estão fazendo versus uma pessoa oportunista. Escolha o primeiro! (Nós buscamos investir apenas nesses).

É claro que nem sempre você ou seus sócios vão saber tudo sobre tudo e terão que ir atrás de mais conhecimento. Mesmo neste caso, é preciso ter um mínimo conhecimento para conseguir extrair o melhor de quem sabe mais, por exemplo, através de cursos, workshops, conversas com outros empreendedores ou até um estágio temporário.

Encontrei. E como saber se é o “the one”?

No texto “Procurando o par perfeito — como achar um co-fundador”, publicado no First Round Review, e traduzido por nós, Steve Blank, um dos principais nomes do empreendedorismo do Vale do Silício, traz algumas dicas de como escolher um parceiro(a) ideal. Segundo ele, é preciso se fazer algumas perguntas-chave sobre a pessoa candidata a cofundadora:

  • Está disposta a estar do seu lado não apenas nos próximos passos, mas ao longo do caminho?
  • Ela tem conhecimento e habilidades que vão ser úteis no longo prazo ou tem capacidade para aprender rápido e se adaptar quando for preciso?
  • Como essa pessoa luta e como resolve conflitos?
  • Como ela trabalha? Tanto quanto você?
  • Ela é perspicaz? Dogmática?

Para chegar às respostas dessas perguntas, o conselho de Blank é que os cofundadores “se namorem primeiro”. Comecem com um fim de semana desafiador ou algum outro momento de atividade intensa que exija muita tomada de decisão. Façam esse teste por um período (provisório) de, no mínimo, 30 dias. “Se deem um tempo antes de se comprometerem completamente. Você está prestes a se casar e ter filhos, e as consequências do divórcio podem, aqui, afundar todo o empreendimento”, diz Blank.

Eduardo Baer e Fernando Gadotti, fundadores da DogHero, plataforma que conecta pessoas dispostas a acolher cachorros temporariamente na sua casa com quem precisa deixar os bichos, se conheceram durante o MBA em Stanford, nos Estados Unidos. Além de serem brasileiros, também compartilhavam a ideia de empreender no Brasil. Quando Eduardo teve a ideia sobre a plataforma e Fernando topou a empreitada, eles decidiram sentar para conversar e ter certeza de que poderiam ser sócios. “Naquele momento fomos para uma sala e começamos a escrever no quadro o que era importante para cada um, como víamos o mundo, nossos valores, e percebemos que concordávamos. Aquele foi o primeiro passo”, conta Gadotti no Canary Cast. O segundo foi contratar um CTO que tivesse as habilidades técnicas que eles perceberam que não tinham, mas iriam precisar para fazer o negócio dar certo.

Outro empreendedor conhecido, Mike Krieger, brasileiro e um dos fundadores da rede social Instagram, conheceu seu sócio, Kevin Systrom, numa cafeteria — acredite! Ele conta no Canary Cast que esbarrava quase todo o fim de semana com Kevin na cafeteria do campus da universidade de Stanford, onde os dois passavam boa parte do sábado e domingo desenvolvendo seus projetos pessoais. Começaram a conversar e, quando investidores falaram ao Kevin que precisava de uma pessoa mais técnica para o negócio, pensou imediatamente no Mike. Para ter certeza de que a parceria daria certo, separaram várias noites para criar um projeto imaginário e tinham reuniões como se fosse uma empresa de verdade. “Certa vez me disseram que você só conhece mesmo alguém se acampar um fim de semana sozinho com a pessoa. Quando estiver sem eletricidade, sem chuveiro, passando dificuldades é que vai conhecer a personalidade real da pessoa. Não fizemos exatamente isso, mas fizemos o protótipo de uma empresa antes de assinar o contrato”, conta Mike. Em 2012, o Facebook comprou o Instagram por 1 bilhão de dólares.

Are you ready?

Encontrar um sócio ideal é tão difícil quanto achar o par perfeito, mas extremamente importante. A composição do time fundador tem impacto direto na execução da ideia de negócio e vai definir todo o ciclo de vida da startup (contratação de time, aportes de investimentos, potencial de crescimento, etc.). Use sua rede de contatos e a tecnologia a seu favor para identificar pessoas que você confie e tenham as mesmas ambições/insatisfações do que você!

Para conhecer mais sobre o Canary, acesse nosso site!