Cultura, uma construção coletiva

Cândida Nobre
Mar 18, 2015 · 2 min read
Banksy

A experiência que temos com um produto cultural hoje é repleta de negociações. Seja uma música, um livro ou um filme, a tensão é quase sempre a mesma. Pode ver, mas não copiar. Já que é só pra você, copia, mas não compartilha. Tá, se é para um amigo (só um!), compartilha, vai, mas não muda. Tudo bem, até que dá para mudar, mas antes pede ao “dono” e, se ele deixar, é preciso colocar o nome, explicar, rotular, selar e carimbar, afinal de contas, cultura que é cultura, para ser bem aceita, assim, de papel passado, não pode ser órfã, precisa de uma paternidade autoral. E não é uma paternidade qualquer, mas um nome de força, reputação e autoridade.

Como se vê, da Revolução Industrial até então, a livre circulação da cultura não é tarefa tão simples.

Mas nem sempre foi assim. Apesar de a gente associar o comportamento de consumo mais autônomo a técnicas e tecnologias recentes, é de espantar o quanto a necessidade de liberdade no manuseio de objetos culturais é antiga.

Na verdade, é como se tivéssemos findando um período em que a burocratização da produção e difusão cultural está, finalmente, dando espaço mais uma vez à colaboração. Assim como era quando a cultura tinha suas bases no domínio público, quando o contador da história interessava menos que a própria história, quando era possível pegar trechos de criações da sua época e construir uma outra narrativa.

Até o momento, precisamos esperar quase um século para que uma obra entre em domínio público (e isto não é força de expressão).

Todavia, não é tão difícil verificar, hoje, uma maior autonomia, tanto do criador — que agora não precisa de intermediários para tornar pública a sua obra — quanto da própria obra que não mais se encerra ao chegar ao público, tendo este a possibilidade de modificá-la, recombiná-la com elementos de seu repertório e devolvê-la à apreciação da sociedade.

Vemos a internet e as tecnologias digitais como algo que veio quebrar as proteções mais rígidas dos produtos culturais — e veio mesmo.

Contudo, mais do que romper, trouxe novas possibilidades de criação que nos retomam àquilo que é básico para o avanço da cultura e da sociedade, afinal de contas, a cultura é construção coletiva em qualquer época e lugar do mundo e não precisa de donos, intermediários ou proteções, mas, sobretudo, da participação de todos.

    Cândida Nobre

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