Entre ciborgues e homens de lata

Cândida Nobre
Aug 22, 2017 · 4 min read

Mas, o primeiro ciborgue que eu tenho lembrança é o Homem de Lata d’O Mágico de Oz.

Na obra de Lyman Frank Baum, o personagem que se une a Dorothy em busca de um coração era, na verdade, um lenhador que se tornara humano-máquina. Por meio do feitiço de uma bruxa, o homem foi perdendo os membros do corpo em acidentes de trabalho e um amigo substitui as partes perdidas por algumas de lata.

O Homem de Lata me lembra que não existe o ‘puramente’ humano, no sentido em que gostamos de propor. Consequentemente, tampouco há o ‘puramente’ técnico.

Ora, se o humano é essencialmente técnica, como já nos propôs Heidegger, por que deveríamos nos preocupar com uma ideia de ‘pureza’? Outro fator relevante consiste no fato da tecnologia conter em si também a moral humana, conforme no lembra Latour, em excelente entrevista publicada no livro ‘O império das técnicas’. Conforme o sociólogo e filósofo afirma, há nos dispositivos um complexo sistema de permissões e repressões que envolve os objetos técnicos. Ele cita o caso do corrimão de uma escada, instrumento capaz de permitir um uso seguro dos degraus, bem como o cinto de segurança, um dispositivo que, quando o autorizamos/usamos, reprime o seu corpo de tornar-se um ‘objeto balístico’ em caso de colisão [esta ideia está discorrida de forma mais clara no texto de Latour, ‘Where are the missing masses? The sociology of a few mundane artifacts’]

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