Tô em sala, e daí?

Cândida Nobre

Para pensar um tiquinho sobre o tempo que passamos nela

Tinha apenas dezesseis anos quando dei minha primeira aula imaginária. Desde os quatorze [sempre achei o “qu-” mais imponente] já havia decidido pela docência, mas só dois anos depois me propus a “materializar” a situação. O tema escolhido foi o período literário brasileiro que antecedia o Modernismo e, em seguida, chegava aos meus autores e histórias favoritos, estes situados a partir da Semana de Arte Moderna de 1922.

Na época em que finalizava o Ensino Médio, não fazia ideia de como definir uma boa aula ministrada, assim, do ponto de vista mais lógico, estrutural. Sequer imaginava o trabalho que daria elaborar cada plano de aula para que eles fizessem sentido para quem os recebia, aos pedaços, em meio a tantos outros.

Apesar de boa parte da vida ter estado em salas de colégio, até aquele momento, uma boa aula tinha mais a ver com uma excelente capacidade de envolver o ouvinte ao contar histórias. Era isso, no fim das contas, que era uma boa aula: uma história bem contada.

A minha aula imaginária contava com supostos discentes envolvidos com o tema, motivados a apreender, mas com uma postura menos participativa do que o desejável. Eram ouvintes, apenas. Era assim que eu via o ensino, talvez por padrão, afinal, era isso que tinha visto durante toda a minha vida escolar: o bom aluno sentava e copiava. Era silencioso e atento. Um sujeito-depósito de informação, com cadernos metodicamente coloridos com diversas canetinhas para destacar o que era mais importante. E só.

Havia um claro superdimensionamento do protagonismo do professor. Hoje, depois de algum tempo em sala, uma série de frustrações e também alegrias, eis que a vida esfrega na cara que não é bem assim que a banda toca e que eu precisava olhar um pouco mais além pra afinar os instrumentos. Ainda bem.

Já nas primeiras experiências, a constatação do óbvio: não, os melhores alunos não ficam calados e as melhores aulas não são monólogos. A segunda constatação que figura na obviedade: não somos preparados para estar em sala. Uma vez aluno, somos obrigados a vida inteira a estar lá, mas não preparados. Não me lembro de ter pedido em algum momento para estar em uma. Como professor, fazemos a opção e aí temos aqueles que vêem o trabalho como algo de valor e outros, como “a única coisa que resta” e, logo em seguida, como um martírio que se torna também o martírio do aluno, culminando em um ciclo de fracasso anunciado.

Nessa beirinha que ainda resta de recesso, queria propor um convite: usar a criatividade em benefício do aprendizado. É claro que, neste caso, estou convidando à motivação e ela vem em grande medida de um contexto particular, mas se estamos com os instrumentos certos em mãos, ela vem mais fácil. Sabe aquele lance de animar-se com a possibilidade da descoberta, de se preparar para estar lá e tudo mais?

É preciso querer estar ali e envolver-se com aquilo. Ninguém faz nada bem se não tiver tesão pelo que faz [oi, clichê útil e verdadeiro!]. De minha parte, mesmo tendo sido obrigada a estar em sala logo cedo, foi cedo também que descobri que queria permanecer ali. O que espero é que desejem também estar lá. ;)

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade