Jasmim-dos-poetas ( Jasminum polyanthum)

Jasmim-dos-poetas

Entrei em uma loja de insumos para floristas com o intuito de pesquisar vasos e arranjos florais fáceis para uma iniciante, mas que pudessem ser de longa duração. Explico o por quê: quando se tem hóspedes entrando e saindo pelo Airbnb em sua casa, o capricho com os detalhes deve ser recorrente para manter um fluxo bacana por aqui, mas o meu objetivo é fazer isso sem pesar demais no orçamento.

(vocês poderão ver o quanto procurei customizar e ressignificar os objetos através das fotos em meu anúncio)

Não sei dizer exatamente por quanto tempo fiquei passeando pelos corredores. Esta “incursão” poderia ter sido iniciada na internet e, com mais rapidez, realizaria as minhas escolhas. Contudo havia uma outra experiência “antropológica” escondida na minha lista de intenções: eu desejava também observar o comportamento de quem lida diariamente com a compra e venda de flores.

Não sei dizer exatamente o que foi que vi, mas desconfio de tudo o que é solução ou comportamento realizado no piloto automático.

Decidi então escutar o conselho antigo das vovós e ir “ouvir” as plantas. Substituí a sessão das flores de corte pelas prateleiras de plantas ornamentais.

Muitas delas me sorriram, mas apenas uma me fisgou a atenção. Chamava-se Jardim-dos-poetas.

— “Com um nome desses? Mas que marqueteira de mão cheia essa danadinha!”, pensei.

Suas flores eram minúsculas e delicadas. Exalava um perfume doce e muito mais suave do que o outro jasmim que conhecera outrora — eles eram para espaços abertos, eram enjoativos!

Fiquei indecisa se esta seria uma boa escolha para a sala de estar de um apartamento sem sacada. Mas assim como uma mulher que se apaixona por um par de sapatos altos — e nem tão confortáveis — usei o velho argumento responsável por 70% (ou mais) no faturamento mensal desse setor: “Não sei se vou conseguir usar, mas é lindo!”. Comprei-a. =D

Preocupada com o bem-estar da “mudinha marqueteira”, deixei-a mais próxima possível da janela. Imaginei também qual teria sido o responsável ao batizá-la, pois o seu nome “Jasmim-dos-poetas” me inspirara a voltar a escrever… Agora só me falta a inspiração e isso, até onde sei, não se compra.

Passadas algumas semanas, os botões viraram flores, cumpriram todas o seu papel e murcharam. Quem é novato na área sabe bem do medo que dá nessa hora: agora somos só nós duas. Intenção e ação. Escuta e palavra. Se eu não compreender os teus sinais, a planta morre.

De certo, quem me lê agora deve pensar que isto é um exagero: “Hora, não faça drama! É apenas uma planta!”

Sim. Uma planta. Uma vidinha perto da janela que despede-se das suas folhas com muita rapidez. E parece que não há nada que eu possa fazer se não ouvir quem entende do assunto na internet: “Jasmins gostam muito de sol”.

Foi então que, num domingo de manhã, reguei todos os vasinhos e reorganizei-os de forma a deixá-la grudada ao vidro da janela.

Após uma tarde de sol intenso (e um vidro que, com certeza, potencializou o calor), o jasmim virou uma porção de galhos secos.

Nunca tive bichinhos de estimação pequenos, mas posso imaginar a dor de uma criança ao se deparar com um ramster morto na gaiola. Ao contrário dos bichos, que uma vez mortos devemos enterrá-los imediatamente, com planta é um pouco diferente: existe um mistério que acompanha a teimosia de quem deseja ter plantas em apartamento. Não sei se isso explica a situação, mas ignorei o fato de ter uma moribunda entre outras plantas verdinhas e continuei regando aquele vaso como se nada tivesse acontecido.

Passaram-se outras duas ou três semanas e, enquanto limpava as prateleiras das pequenas, surpreendi-me com “milagre” da renovação. O sol tirou o viço da planta pelo excesso de exposição, mas sombra e a água deram uma nova oportunidade para a vidinha que ainda se mantinha alí.

“A persistência vence o talento”, diria o jardineiro. A alegria do renascimento, à qual a primavera veste tão bem, invadiu o pequeno apartamento e transbordou nesse texto.

Observar o ciclo da vida do Jasmim-dos-poetas, inspirou-me de fato a voltar a escrever. E cá estou, inaugurando o meu perfil no Medium.

Ah! E quem batizou a plantinha com esse nome não era um marqueteiro, era um sábio!

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