Venda-me se for capaz

Avenida Amazonas, 2012

Ao contrário do grafite, que se transformou numa ferramenta de enobrecimento urbano, a pichação, que incomoda muita gente, não tem sequer uma discussão aprofundada do assunto. Bem da verdade, mal sabemos distinguir um grafite de um picho, ou de um grapixo, ou uma mera assinatura mais elaborada — assim como se faz no cheque. Voltando aos anos oitenta, quando esse hype suburbano começou, era uma briga entre periferias ou torcidas na ânsia de demarcar seu território aos olhos do inimigo. Aos olhos de quem tem a fachada de sua moradia coberta por esses hieróglifos que só são compreensíveis aos iniciados, é algo que sem dúvida incomoda.

Se o governo não consegue mudar a proliferação desse tipo de vandalismo, talvez seja porque vira o rosto em fomentar uma discussão mais clara da sub-cultura do tal movimento hip hop. Já que a pichação em topos de prédios verticais é um fenômeno exclusivo do Brasil, devemos enxergá-la separada do que está ao redor dela? O que está escrito nos muros de toda a cidade pode estar até no google streetview, mas se caçar algo pra pensar o fato enquanto fenômeno social, há muito pouco.

Então, vamos falar de alguém que o noticiário vendeu como “o bandido que pichou o Cristo”? Bem, para isto, foi necessário recorrer às notícias do dia 12 de junho de 2012. Na noite anterior, um cidadão conhecido por pintar seu codinome Cossi nos altos de prédios desde a década de 1990, pegou seu Peugeot vermelho para levar um amigo pra pintar ”Ronaldinho 49” no Cristo Redentor do bairro Barreiro. Era uma alusão a contratação da celebridade futebolística farofa que pode ajudar o Galo a levar o título em 2012. Na pressa, o parceiro de Cossi engoliu o L e deixou um “Ronadinho 49” nas costas do Santíssimo, e quando ia começar a desenhar o manto, avistou-se a chegada da viatura. Jogaram as latas de spray no mato e saíram, cada um para um lado. Horas depois, quando foi buscar o veículo, Cossi foi interpelado pela Guarda Municipal, quando tentou sair em disparada, mas o pneu do carro estourou e ele finalmente se entregou.

Usando a identidade do irmão, tentou driblar as autoridades. Ousadia? Que nada, essa era a segunda vez. Três meses antes, o sujeito rodou com a carteira de motorista do irmão mas escapou — com aquele nome, era réu primário. Agora aguarda julgamento, mas não em liberdade.

Voltando num fato que o pessoal da arte urbana considera histórico na cidade, quando o Cine Brasil era apenas uma ruína abandonada, logo acima de um outdoor empoeirado de Coca-Cola, alguém pichou; “(…), em cima de mim, só deus“. Logo, Cossi conseguiu superar a altura do oponente e do refrigerante mais vendido, pelo menos. A marca ficou no local por cerca de uma década, marcando a passagem de um sujeito que tinha mais história pra contar.

Segundo relato da delegada Cristiane Moreira, da Divisão de Meio Ambiente da Polícia Civil, depois de passar quatro anos preso por assalto à mão armada, desde 2010 Cossi voltou a escrever seu nome pela cidade. Em 2011 a avenida Amazonas já estava infestada de provocações de Cossi — que ao ser conduzido definitivamente para o Ceresp, ali no caminho poderia até ver pelas frestas do cárcere, sua mensagem em todo canto; “Prenda-me se for capaz“.

Sujeito em cativeiro, Cossi tornou-se referência quase-mitológica aos excluídos. Na última sexta-feira, passando sob o viaduto Santa Tereza, vi um moleque com um Cossi grafado a navalha atrás da cabeça, quis tirar uma foto, mas ele sumiu. A qualquer hora do dia, você pode dar um passeio pela futura área gentrificada da rua Sapucaí, ali pelos lados do viaduto da Floresta e constatar em letras garrafais; “Liberdade Cossi — GG/PE”. A famigerada figura vinda da periferia para pichar a pele da cidade perdeu a liberdade porque não tem medo de cadeia. Segundo o próprio Cossi, teriam sido mais de um milhão de marcas — que agora ele só pode ver on-line.

Fica a marca de um gigantesco muro de contenção no Belvedere, subindo a BR, feito no final do ano passado e que logo foi apagado. Assim como o “Na Cara da ROTAM”, feito no topo da Faculdade de Engenharia abandonada na Andradas, só que neste segundo caso, devem ter sido as próprias autoridades que mandaram cobrir a afronta, pois só apagou-se o “ROTAM”. O prédio tá lá, ruína intacta.

São incontáveis fachadas e topos de prédio com esses nomes ininteligíveis. Ao mesmo tempo que revolta os moradores que se sentem diminuídos, a pichação também pode ser entendida como uma poesia tipográfica feita pra incomodar e só?

Sem querer responder, lembrei de outra frase que vi escrita pelo baixo Centrão:

“Avisa pra Madonna! Que no Brasil não tem Censura!”

Será?

originalmente publicado no Cometa Itabirano nº 358 (dezembro de 2012)

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