Casamento: o refrigério contra-cultural

Isabela Almeida
Nov 4 · 5 min read

Esse texto foi escrito por uma jovem solteira, espero que seja um encorajamento sóbrio.

Quando li o capitulo Casamento Cristão, em Cristianismo Puro e Simples travei um diálogo estranho com Lewis. Havia terminado os 4 amores a pouco, e ainda estava fresco na minha cabeça o significado de cada tipo de amor. Lewis foi claro “moça, não se engane, quando você se casar, haverá uma hora em que o Eros (paixão) irá acabar”. “Mas Lewis, eu serei uma ótima esposa, serei espontânea, bonita, gentil, darei o meu melhor, serei uma exceção!”. Lewis “Mesmo que isso fosse verdade, e realmente conseguisse ser a melhor esposa do mundo, ainda assim o eros acabaria. Haverá um dia em que seu esposo não terá o mesmo prazer em sua companhia, não estará perdidamente apaixonado, não te achará tão bonita, e até poderá duvidar se se casou com a pessoa certa”. Claramente, depois dessa, meus argumentos acabaram, e minha idolatria foi exposta.

A idolatria matrimonial acredita que o casamento irá te redimir. Ou seja, quando você casar se tornará um alguém que sempre quis ser. Será amado e admirado para sempre. Terá a pessoa que mais gosta de você sempre por perto. E poderá agrada-la e colher os frutos disso diariamente. Irá ser a pessoa legal e agradável que é no namoro (ou que pensa ser). E terá tempo e disposição para ser mais agradável, mais gentil, mais disposta. Nossa expectativa não raro chega ao ponto do transcendente ao se misturar com mil emoções romantizadas.

Mas a realidade que raramente queremos admitir, e que Hollywood nos ajuda a negar e ignorar, é que o casamento não se trata disso. Bem cedo, essa expectativa romântica e hedonista é abalada. Logo perceberá que seu cônjuge é um pecador, ingrato e egoísta. Descobrirá pecados em você que nem sabia que existiam. Além disso, chegará a conclusão que não será uma pessoa melhor só porque casou, nem tem mais tempo, nem mais disposição para mudar do que tinha antes de se casar.

A realidade é dura, e nossa tendência é colocar a culpa desta frustração nas imperfeições do casamento ou no cônjuge, nos levando até a duvidar da decisão do “sim”.

Mas, perceba, o verdadeiro problema não está em nada disso, antes está na expectativa. O casamento mais se parecerá com o Céu quando o perdão e amor é exercido da mesma forma que Deus faz conosco aqui na Terra. O casamento é o retrato da Igreja com Cristo. Não da Igreja glorificada com Cristo, mas sim da Igreja caída, capenga e defeituosa sendo continuamente resgatada pela Graça, amor e perdão de seu amoroso noivo.

Somos diariamente santificados com bondade e longanimidade. Se não é capaz de ver beleza nisso, mesmo em meio as feiuras e cicatrizes, não sabe o que é Beleza para Deus. É preciso ser sóbrio e ciente do que está por vir. Mas isso não deve nos desanimar, pelo contrário. O casamento é uma ferramenta lindíssima de Deus para nos santificar em amor. Já imaginou que alguém pudesse te conhecer quase como Deus te conhece e ainda assim te amar? O casamento nos reflete o amor de Cristo, aumentando nossa fé de que algo assim é mesmo possível!

E, claro, um cordão de 2 dobras é mais difícil de se quebrar. É no casamento que encontramos nosso parceiro para a vida toda, de caminhada cristã, na alegria e na tristeza. Você poderá ser o pior cônjuge possível, mas seu par ainda te desejará bem, ainda se preocupará com você e ainda se importará com sua vida com Deus, sua santificação. Alguém fará as mais sinceras orações por você pelo resto da vida!

Alem disso, apenas no casamento todos os tipos de amores podem ser entregues deliberadamente! Somos estimulados biblicamente a entregar todo o nosso ágape, eros, vênus, e por ai vai, ao nosso cônjuge. Esta plenitude do amor só é possível no contexto do matrimônio.

Dar tchau ao ídolo é sempre muito difícil, quero dizer, as bolotas de lama são legais, mas a praia nos espera. Essa disfunção da afetividade que sofremos em nossa geração não pode nos cegar. Sejamos sóbrios, tanto na tomada de decisão, quanto em nossa postura ante as dificuldades do relacionamento.

Deixe a emoção passar — deixe-a extinguir-se — , passe por esse período de morte e chegue ao período mais sereno de interesse e felicidade que se seguirão — e descobrirá que estará vivendo em um mundo repleto de novas emoções. [Cristianismo Puro e Simples, Casamento Cristão. CS Lewis]

O casamento é simples! Porém profundíssimo. Existe um outro grande medo que aflige nós jovens para além da frustração de nossas idolatrias: nossa exposição. No fundo sabemos que casamento não é a respeito do outro, mas de nós mesmos. Logo no namoro percebemos que seremos expostos e tratados na profundidade de nossos pecados. Mas não queremos isso! como jovens, queremos fugir disso, queremos diversões e prazeres. Queremos manter nossas máscaras de piedade e perfeição.

Mas Deus nos chama a um casamento bíblico. Uma missão muito maior que nossos ídolos e vaidades da juventude. Ter uma família, esse ecossistema cada vez mais raro, como diz Edith Schaeffer, que trará um ambiente propício para mais vidas crescerem em graça e amor, em meio a todas as suas imperfeições.

Se for necessário algum “movimento”, é o movimento para restabelecer a vida verdadeira da família. Como se pode imaginar o mundo se tornando deserto, seco, isento de vida das plantas por causa do desequilíbrio ecológico, podemos também imaginar as famílias a murchar, encolher e deixar em seu lugar um deserto quanto às personalidades humanas. Qualquer família será um oásis. É necessário o surgimento de muitos pontos verdes no deserto, ao preço de colocar outras pessoas antes da própria busca pela felicidade. A mera existência do oásis é importante para quem viaja no deserto. [O que é uma Família, 2. Um ambiente ecologicamente equilibrado. Edith Schaeffer, grifo meu]

A família se inicia no casamento. Esta é minha conclusão. Não aos ídolos afetivos desta época. Não às nossas expectativas hedonistas. Não aos medos vaidosos. Antes, sim a missão maior de santificação, coragem, graça e amor que é estabelecer uma família, saudável e bíblica, mesmo em meio a todas as limitações e imperfeições de quando pecadores dizem sim.

Por isso a escolha é importante, se o escolhido(a) não está ciente de tudo isso, assim que o Eros acabar, pensará que cometeu um erro, e quão doloroso será! O centro do casamento não pode ser nossa felicidade, mas sim a Santificação e o próprio Cristo. Que Deus nos dê a graça de abraçarmos esta missão com toda coragem e piedade.

A ideia de que ‘estar apaixonado’ é a única razão para permanecer casado realmente não deixa espaço para o casamento como contrato ou promessa. Se o amor for tudo, então a promessa não pode acrescentar nada; e se não pode acrescentar nada, então não pode ser feita. [Cristianismo Puro e Simples, Casamento Cristão. CS Lewis]

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Quem canta um ponto, cria um conto. Devocionais e rascunhos sobre as harmonias da vida.

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