Porta 69

Desci do táxi e olhei a minha volta. Eu estava na periferia e não mais em minha casa. Avistei à minha frente uma banca de jornais e lá reconheci o velho que era amigo do meu pai e que me daria casa e comida dali em diante. Meu pai viajaria para longe e havia me dito para ficar na casa de um amigo dele que morava no morro. Eu hesitei mas ele disse que se eu não fosse ele não mandaria mais a mesada que eu recebia. 
Fui em direção da banca e me dirigi ao velhote e ele perguntou, com certa arrogância, se eu poderia entrar e deixar as coisas lá dentro e disse que depois eu poderia jantar. 
Entrei na casa. Casa velha e pequena. A porta de um dos quartos era de aparência antiga e tinha inscrito nela, pintado de preto, o número 69. Achei estranho e senti que havia algo de diferente atrás daquela porta, mas segui o caminho e me deparei com a sobrinha do velho na cozinha. Ela era linda. "Oi. Tudo bem?" "Bem. E aí?", ela disse,sem olhar para mim. 
Jantamos e mais tarde fomos dormir. Ouvi durante toda a madrugada passos sondando a porta do quarto onde eu e a menina dormimos. Comecei a achar estranho e a sentir medo porque o velho estava roncando no quarto ao lado. Quem poderia ser? 
Deitei-me de lado e vi a silhueta de uma mulher de vestido branco parada no corredor olhando para mim e para a menina, que estava dormindo ao meu lado. Ela acordou assustada com o pulo que eu dei. "O que aconteceu?!" "Vi uma mulher ali no corredor olhando para nós!" "Você está louco. Volte a dormir!". Não dei ouvidos a ela e fui na direção do corredor. A mulher havia sumido, mas quando olhei para o quarto 69 vi uma luz debaixo da porta e por impulso resolvi entrar. "Ei, onde você vai, ô esquisito?" "Ela entrou ali e vou atrás dela." "Se o velho souber que entramos aí dentro estamos ferrados! Ele não gosta nem que olhe para esta porta, mané." 
Abri a maçaneta. Lá dentro todas as paredes eram brancas e o piso era de madeira. Tudo cheirava a coisa velha. Tudo o que havia no quarto era uma cama velha e um criado-mudo. De repente, quebrou-se uma parte do piso perto da cama e o barulho alto o bastante para acordar o velho, que estava no quarto ao lado. Fechamos a porta e olhamos mais de perto a parte do piso que se quebrou. O chão era oco e escondia algo feito de madeira ali. Quebramos um pouco mais do piso e vimos que aquilo era um caixão de madeira. Olhamos um para o outro e ficamos espantados com aquilo que estava diante dos nossos olhos. Nosso espanto foi maior quando a parte de cima do caixão apodreceu e desmanchou-se mostrando um esqueleto vestido de branco. "É ela! A mulher que eu vi olhando para nós!" O esqueleto segurava uma caixinha na altura de seu tórax. Pegamos a caixinha e lá dentro havia seis pedras de diamante e nossos olhos brilharam tanto quanto elas. Percebemos que junto dos diamantes havia um papel. Era uma foto. Uma foto de um homem e de uma mulher juntos e alegres.
PAIM! Ouvimos um barulho de tiro. O velho estava parado na porta com uma arma na mão. Olhei assustado para ele e depois olhei para a foto e vi que o rapaz da foto era o velho, só que pelo menos uns sessenta anos mais novo. "Seus malditos! Deixem Amélia descansar!" Disse ele, apontando a arma para mim. Eu coloquei minhas mãos sobre o meu rosto e só ouvi um grunhido e o barulho de alguém caindo no chão. A menina estava de pé. Ela havia jogado a caixa de diamantes na cabeça do velhote e ele estava lá, duro no chão. 
Pegamos a caixa de diamantes e fugimos dali. Fomos passar uma temporada em Acapulco e seis meses depois nos casamos em Londres. 
E só me dei conta de que tudo aquilo havia sido um sonho quando a luz do sol veio me acordar dentro do táxi, naquela comunidade longe de onde eu cresci. 
Olhei lá fora e vi um velhote numa banca de jornais.


Esse conto eu escrevi em uma das aulas do meu curso de Pedagogia. A proposta foi de criar um conto com um final inesperado, aí eu lembrei de um romance que eu havia escrito há alguns anos e resolvi transformar em conto para atividade em sala.

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