O Museu Nacional e a crise como projeto

Rennan Cantuária
Sep 5, 2018 · 2 min read

O Museu Nacional, o mais antigo do país, no ano de seus 200 anos, na Semana da Independência, acabou. Não se tratava de um simples museu para visitação, mas de uma universidade. Por sinal, o primeiro campus de pesquisa científica do país. Abrigava sociólogos, antropólogos, museólogos, biólogos, paleontólogos, historiadores e muitas outras especialidades dos mais diversos campos da ciência. Apenas 1% do acervo era exposto no museu, enquanto sua maior parte era fonte de pesquisa científica. Anos de descasos com o patrimônio e os cortes na cultura acabaram com pesquisas, acervos, história, tudo. Destruíram o palácio que foi coração do país, peça fundamental da história.

Há não muito tempo, a ex-presidente Dilma Rousseff promoveu duros ajustes orçamentários, reduzindo as finanças da UFRJ e cortando pela metade a verba destinada para a manutenção do Museu Nacional. Já com apoio da Globo, bancos e megaempresas, o ex-governador Sérgio Cabral investiu cerca de R$ 230 milhões no Museu do Amanhã e bilhões para a Copa do Mundo e Olimpíadas, enquanto outros estabelecimentos ficaram abandonados. Pouco depois, o atual governador, Luiz Fernando Pezão, deixou bombeiros, professores e demais servidores públicos sem receber, enquanto impôs cortes que precarizaram a UERJ e a CEDAE com o intuito de privatizá-las.

Também recentemente, o presidente Michel Temer havia tentado acabar com o Ministério da Cultura e não conseguira. Porém, seu ajuste fiscal cortou efetiva e drasticamente as já insuficientes verbas destinadas à cultura, educação, ciência e tecnologia, restando ao Museu Nacional apenas 1/10 do orçamento necessário para sua manutenção. A “Ponte para o Futuro” incinerou nosso passado, devastou nosso presente e atormenta o porvir. Além dos milhões perdidos, a economia de Temer custou o que não tem preço e cumpriu mais que o prometido: acabou com 200 anos em 2.

Além da perda concreta, é simbólico que se tenha cremado páginas importantes da nossa história nesses tempos de ódio, destruição do país, retirada de direitos, negação da história e rompimento com a democracia. A presente e as futuras gerações não conhecerão o Museu Nacional, assim como correm o risco de não conhecer direitos trabalhistas, previdenciários e fundamentais. Darcy Ribeiro estava correto em afirmar que a crise não é uma crise, mas um projeto. Um projeto que zela pela manutenção dos privilégios dos mais ricos, cuja conta é paga pelos trabalhadores do país. Uma tragédia anunciada e devastadora.

Por isso, lutar em defesa da educação, da ciência, do patrimônio histórico e cultural, da memória e da história desse país é fundamental para que não tenhamos o ódio como vizinho, a ignorância como exemplo e o horizonte obscuro que se anuncia. Não por acaso, um dos mais cotados candidatos à presidência do Brasil disse em rede nacional que “deixa os historiadores pra lá”. O poder do conhecimento impõe medo a quem anseia ou detém o controle das instituições.

Não se trata apenas de combater uma dura discordância. Se organizar e disputar cada mente, cada coração, é uma tarefa obrigatória para quem acredita no poder transformador da educação, do pensamento crítico, da autonomia do indivíduo e da autodeterminação dos povos. A responsabilidade cabe a cada um de nós.

Rennan Cantuária

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Baixadense, 33, educador, cientista social pela UFRJ e pós-graduando em Estudos Linguísticos e Literários pelo IFRJ. Escrevedor nas horas vagas.